A gritaria mediática à volta do Papa e dos preservativos já começa a meter nojo. Nem conheço bem a opinião da igreja católica sobre o tema, embora tenha a ideia de que é uma orientação bastante conservadora. Admito mesmo que seja perigosa, pois o não uso do preservativo pode levar a níveis perigosíssimos a difusão da sida e de doenças quejandas. Mas circunscrever a mensagem papal às famigeradas camisinhas, parece-me uma monumental operação de desinformação, um enorme embuste. Chateia-me sempre ver uma data de palonços a competir para ver qual deles é o politicamente mais correcto. “Ai, mas c'órror, o homezinho não pode com camisas !” E isso é razão para ignorarem o resto da mensagem papal ? Chiça, nem sequer sou católico por aí além, mas está-me a irritar este bafo que deitam estes e estas meninas politicamente correctos; e sabem a que é que cheira esse bafo, meninos ? Paradoxalmente, cheira a sacristia.
Ao pé de VNMilfontes há um restaurante simpático que serve razoavelmente e cuja única particularidade é trazer nos cardápios a frase “Todas as tachas incluídas”.
Tal expressão impressiona-me pois até me parece que acabei de ser picado por uma tacha que quase me atravessa o dedo no momento da manipulação do menu.
Não deixa de ser interessante ponderar que o proprietário entende a fiscalidade como autêntico atentado à integridade física, daí a taxa ter-se transmutado em “tacha”.
Tem a sua poesia.
Estou esmagado pela responsabilidade e pela globalização. Acabo de verificar que passou por este blog um visitante de... Ulan Bator, Mongólia. Nem nos meus sonhos mais delirantes eu iria imaginar que seria lido por um ilustre mongol, quem sabe, porventura um descendente daquele rapaz simpático que dava pelo nome de Gengis Khan...
O meu amigo Funes el Memorioso é afinal membro de uma família ilustre que dá cartas em várias partes do mundo, como a Saphou bem descreve neste post.Consta que o Funes luso se prepara para abraçar uma carreira política entre nós.Tentando corresponder ao que se espera dos amigos, aqui deixo dois slogans para a sua campanha que, espero, esteja próxima:
Se há coisa que me deixa com pele de galinha é a frase “já não tenho pai” ou “já não tenho mãe”. Eu continuo a ter pai e mãe, embora ambos já cá não estejam. Este post da Saphou comoveu-me e trouxe-me lembranças. A morte do meu pai e mais tarde a morte da minha mãe foram para mim momentos de hecatombe, de caos tal que é difícil explicar. O senhor meu pai faleceu em Janeiro e eu mergulhei numa onda de horror e angústia da qual só acordei 6 meses depois, em Julho, a fazer longas passeatas de bicicleta à beira mar. Continua a acompanhar-me quase diariamente – e não estou a exagerar rigorosamente nada. Habituei-me a pensar nele só com o imenso amor que lhe tenho e já não com a angústia e a sensação de perda. É curioso, hoje já não tenho grande sensação de perda, porque frequentemente me sinto acompanhado por ele, a sua voz ressoa na minha cabeça e quase tenho a sensação de que se olhar para o lado vou ver o seu semblante calmo e carinhoso. Eu não posso dizer que “já não tenho pai” - sempre o tive e sempre o terei.
Nota: Volta e meia vou pondo aqui umas quantas canções que fazem parte do imaginário da minha geração, ou pelo menos de parte dela, sem tentar ser exaustivo, apenas para recreio da rapaziada que por aqui passa. O critério é basicamente o da qualidade da gravação, embora com algumas concessões em virtude da respeitável idade de algumas delas.
Há por aí alguns rapazes de serviço cuja função é difundir opiniões e notícias favoráveis ao querido líder. Uma das explicações que eles dão para o facto de haver uma relevante antipatia de muitos sectores relativamente ao dito cujo querido líder é a seguinte: o querido líder, como verdadeiro homem de Estado, resolveu enfrentar os poderes cinzentos e subterrâneos da democracia, afrontando muita gente, que agora o odeia. Enganam-se. Não são propriamente as medidas do querido líder que o tornam alvo da antipatia. É a forma como o fez, fatiando a sociedade em “corporações” a açulando a populaça contra as diversas classes profissionais, uma a uma: médicos, juízes, enfermeiros, funcionários públicos, etc., foram sendo, à vez, hostilizados e submetidos a barragens de contra-propaganda e ainda por cima sem direito a contraditório, pois os jornalistas em geral deslumbraram-se com o querido líder e com o seu vasto “programa de reformas”, que hoje, 4 anos depois, pouca gente tem dúvidas de que vale praticamente zero). Nenhuma – nenhuma ! - reforma foi feita sem o recurso à diabolização dos profissionais que se queriam “reformar”, e isto cria um lastro de antipatia maior do que aquele que o querido líder consegue gerir. Bem podem fazer campanhas brancas – já não recuperam a antipatia profunda e entranhada que milhões de pessoas contraíram relativamente ao querido líder – e aos queridos bonecos que o seguem cega e acefalamente.
Manuel Alegre está para o PS como Passos Coelho para o PSD. A diferença é que Alegre escreve livros que ninguém lê e Passos lê livros que ninguém escreve.
Hoje houve (aliás está a decorrer) uma eleição lá na minha chafarica. Como sempre, desde há uns 10 anos, não votei, por me parecer irrelevante perder tempo com isso. Perguntaram-me com alguma consternação a razão da minha atitude. Respondi apenas “não voto”. Mas porquê, perguntavam eles ? Não explico, já nem isso, só tenho a dizer que Não voto para as legislativas; Não voto para as europeias; Não voto para as autarquias; Não voto para a profissão; Não voto para o condomínio; Não voto para a comissão de festas lá da parvónia; Não voto para os blogs; Não voto para sondagens; Não voto para nada; Não voto, não voto, não voto. Tenho dito. Quando a percentagem dos não votantes atingir níveis alarmantes - e já não anda longe - mesmo quem não quer, acabará por perceber. Habituem-se, cambada de vígaros ! Actualização: ah, e ainda mais esta - recuso-me terminantemente a responder a inquéritos telefónicos.
Para o meu visitante que anda à procura dos preços da silent guitar: Em Portugal custa à volta de 450 €, uns 90 contos em moeda antiga. Em Espanha, há 2 anos, o preço rondava os 500 €, provavelmente deve ter baixado, mas não tenho a certeza. Vi uma à venda na Lismúsica, em Lisboa, não me lembro do preço, mas não deve andar longe dos valores indicados. Desejo-lhe uma boa compra - e não se esqueça que a opção por cordas de nylon ou cordas de aço é crucial. Sugiro que de caminho compre umas quantas pestanas (cavaletes) de osso, para "quitar" a viola nos moldes aludidos aqui.
Então não é que tudo indica que as mulheres são mais resistentes à corrupção do que os homens ? Descobri isso aqui. A minha surpresa foi a de que aceitei a coisa muito bem – nem fiquei surpreendido. Depois, analisei-me: porque raio de carga de água é que não fiquei surpreendido ? A resposta a tal indagação is blowing in the wind, há-de aparecer por aqui mas por enquanto anda a assobiar alhures.
Já escrevi aqui sobre Carlos Ruiz Zafón e a sua obra “A sombra do vento”. Os seus cenários radicam preferencialmente em Barcelona, onde o mistério e a magia se podem fundir. Comecei há pouco a ler “O jogo do anjo”, também centrado em Barcelona, onde um jovem escritor ensaia a vida. Tão bom como o anterior: Zafón escreve muito bem, a sua escrita é densa e envolvente, o pormenor é tratado com toda a deferência. Recomendo vivamente a sua leitura, para quem goste do género.
Vi esta pergunta feita por um leitor e, como sei a resposta, passo à matéria: Por tentativa e erro, meu caro leitor. Antes do mais, note que normalmente os cavaletes, mesmo de boas violas, são feitos em plástico. Há no mercado cavaletes em osso bastante bons e baratos. Compre 4 ou 5. Verifique a altura do cavalete de origem: imaginemos que tem 5 milímetros. Pegue num dos cavaletes de osso e desbaste-o até ele apresentar uma altura de 2 ou 3 mm. O desbaste pode ser feito através de uma lima ou de uma lixa grossa e – claro ! - tem que ser feito com cuidado; convém usar um torno que fixe bem o cavalete, mas não é essencial. Experimente o novo cavalete: se o som satisfizer, óptimo, nada mais há a fazer. Se a viola der som de “lata”, o cavalete está demasiado baixo. Pegue no segundo cavalete de osso antes comprado e desbaste-o até ele ficar com a altura de 3,5 mm ou de 4 mm. A ideia é baixar o cavalete ao máximo possível antes de o som da viola ser prejudicado: conseguirá que as cordas fiquem muito mais perto da escala, proporcionando novas oportunidades de evolução no manejo da viola. Em princípio, quanto mais alto for o cavalete, melhor será o som e mais difícil será a acção do guitarrista, uma vez que as cordas estão longe da escala; o que se pretende é facilitar a acção do guitarrista sem prejudicar a qualidade do som. Cada viola tem a sua altura óptima, a encontrar, como digo acima, por tentativa e erro. Aditamento: tenha-se em atenção que os cavaletes variam muito consoante as cordas da viola são de nylon ou de aço. Muitas vezes as violas folk (aço) trazem um veio de metal dentro do braço, ajustável através de uma chave sextavada, que permite ao utilizador sem grandes complicações subir e descer a escala.
Costumo designar por viola electro-acústica aquela viola que tem caixa e pode ser ouvida só por si, mas tem também uma ligação para um “jack” que a leva a um amplificador. O sistema de electrificação que conheço é o “Fishman”, que consiste num kit adaptável a qualquer viola acústica de caixa, que lhe proporciona uma entrada de “jack”. Há muitas electro-acústicas de origem – há uns anos o padrão máximo de qualidade dessas violas eram os modelos da “Ovation”- mas hoje há os mais variados modelos das mais variadas marcas, todos com qualidade. Noto, porém, um padrão de alguma sobranceria dos fabricantes relativamente às electro-acústicas de cordas de nylon: quase nunca têm electro-acústicas topo da gama, reservando esse lugar às violas só acústicas. A solução, para se ter uma electro-acústica topo da gama, é comprar a acústica super top e depois mandar colocar-lhe um “Fishman” por quem saiba fazê-lo, juntando-se o melhor dos dois mundos (há hoje amplificadores de extrema fiabilidade, com efeitos incorporados – reverb, chorus, delay – que conseguem expandir o som com níveis de qualidade espantosos, emulando o som de estúdio de uma forma surpreendente). Quanto às electro-acústicas de cordas de aço, há no mercado uma série de boas violas com preços razoáveis – Gibsons, Fenders, Epiphones, etc. Nestas, como noutras violas, é importante que o espaço entre as cordas e a escala seja mínimo. Ora acontece que normalmente o cavalete (ou pestana de cima) de origem é muito alto, o que eleva a altura das cordas; em quase todas as minhas violas tenho aplicado um cavalete/pestana de osso, desbastado por mim, mais baixo que o original, com resultados razoáveis (há no mercado cavaletes/pestanas em osso por preços acessíveis, é possível sacrificar um ou dois antes de atingir a altura ideal).
Tenho verificado que muitos dos meus visitantes vêem aqui para saber de violas. Aqui vão umas dicas para quem quer comprar uma. Antes do mais, se é principiante, comece com uma viola de cordas de nylon, que são menos agressivas e fazem calo na mesma, mas demoram mais tempo a fazê-lo. Em Portugal hoje em dia compra-se uma viola razoável para principiante por uma quantia que ronda os 60 a 80 €.Por 200 ou 300 € já se compra uma boa viola de marca – recomendo a Alhambra, que nos seus modelos de média gama apresenta alguns bastante bons. A viola de cordas de nylon é também aconselhável para dedilhados e – claro ! - para peças de viola clássica. Se pretende dedicar-se mais a folk, rock e em geral música moderna, então a boa opção é uma viola de cordas de aço. Quer as cordas de nylon, quer as cordas de aço têm várias graduações de espessura - quanto mais grossas são as cordas maior é o calibre das ditas – podem ser heavy, strong, normal, light, super-light e extra-light. Normalmente para cada viola há um calibre de cordas mais adequado – na dúvida, escolha cordas de tensão média ou baixa (light ou extra-light). Atenção: em violas normais não convém colocar cordas muito tensas ou de calibre muito forte, porque podem levar o braço da viola a empenar (muitos braços não estão construídos para suportarem tensões elevadas, daí os cuidados a ter) – é escusado dizer que se uma viola empenou o braço, o melhor é dá-la a uma criança da família para ela rebentar porque deixou de ter qualquer valia como instrumento musical. Hei-de voltar ao tema para tratar de violas electro-acústicas e eléctricas tout court, tipo “bacalhau”.
Finalmente uns saldos com preços decentes ! Se os comerciantes das outras áreas tivessem o dinamismo, a vontade devencer e o profissionalismo do dono desta loja, há muito que a crise estaria totalmente debelada.
(...)Ao fim de quatro anos de maioria absoluta, o PS deixou de ser um partido para se transformar num conjunto de figurantes que, de tempos a tempos, serve para ornamentar a actuação do Governo e os grandiosos anúncios lançados pelo primeiro-ministro. E, como se compreende, não compete aos figurantes suscitar dúvidas, apresentar críticas ou levantar questões. Os figurantes, em certa medida, fazem parte do cenário: estão ali para bater palmas, para agitar bandeiras e para manifestar ruidosamente a sua imensa devoção ao chefe.(...) Constança Cunha e Sá, no Correio da Manhã
O meu amigo Coutinho Ribeiro escreveu aqui uma divertida história sobre um dia que copiou num exame e foi apanhado. Lembrei-me da minha nunca suficientemente digerida história com a bela Cecília, minha colega do 7º ano, nos finais dos anos sessenta. Cá vai: A Cecília era gira, o suficiente para me fazer magicar formas de aproximação mais ou menos interesseiras; acho que estava numa alínea diferente da minha, mas tínhamos algumas cadeiras comuns e o Latim era uma delas. Constava que ela era uma barra – e eu era um nabo de primeiríssima categoria, fazia traduções e retroversões inenarráveis de textos do Virgílio e do Ovídio (cheguei a fazer uma tradução da Guerra de Tróia como sendo um... casamento – mas nem vou falar desses despautérios, senão nunca mais saímos daqui). Chegou o dia do exame e lá fui. Qual não é meu espanto e agrado quando descubro que a boa da Cecília tinha calhado mesmo ao meu lado – aproveitando e abusando, copiei que nem um leão pelo ponto da moça, que foi impec e me deixou copiar à vontade; a certa altura, com um sorriso aberto e apontando para os meus pés sussurou-me em jeito de pergunta: “isso é contestação ?” Intrigado, olhei para os meus pés... e descubro que tenho uma peúga azul e outra roxa a atirar para o rosa choque ! Claro que eu é que fiquei chocado. Caiu-me a alma aos pés – tinha-me levantado muito cedo e na semi-obscuridade do meu quarto (não abria a luz para não incomodar os meus dois irmãos), enfiei uma peúga de cada nação e nesses tristes preparos venho a ser descoberto pela bela Cecília ! Nunca mais pude olhar para ela, não sei se por vergonha, se por ela me lembrar sempre uma peúga. Bom, mas a história acaba bem: tive 16 na cadeira e dispensei da oral. Por causa desta história semi-macabra, nunca gostei do “Cecilia” do Paul Simon, saído mais ou menos por essa época, salvo erro no álbum “Bridge Over Troubled Water”. Quanto à Cecília propriamente dita, nunca mais a vi.
Certos rituais colectivos são em si mesmos portadores de notícias, muitas vezes não necessariamente aquelas que os seus protagonistas pretenderiam. Estou-me a lembrar, por exemplo, de que pouco antes do 25 de Abril os principais chefes militares prestaram a Marcello Caetano uma espécie de juramento de fidelidade, pretendendo dar com isso a ideia de que o regime estava mais sólido do que nunca (generais e almirantes que mais tarde se viram apelidados de “brigada do reumático” pelos mais jovens militares que fizeram o 25 de Abril uns meses depois). A cerimónia, que pretendia ser uma manifestação de vitalidade e fidelidade das forças armadas acabou por ser historicamente (hoje ninguém o contesta, penso eu) o prenúncio de que a situação então já existente era a oposta – nesse mesmo período já o MFA ultimava os preparativos do golpe que derrubou a ditadura, e esta já tinha os dias contados. A cerimónia de unanimismo e aclamação do querido líder proporcionada pelo congresso do PS deste fim de semana revela que quase não existiu debate, o sistema de escolha dos delegados ao congresso era indiferente – porque o essencial estava escolhido e assumido antes do mesmo congresso – as ideias força foram de uma pobreza franciscana e praticamente limitaram-se à retórica de ser indispensável uma nova maioria absoluta do PS para proporcionar a esse estadista extraordinário que é Sócrates a oportunidade de liderar o país nesta época de crise que vivemos. É pouco, é mesmo muito pouco. Parece que os corifeus do PS já concluíram que o debate de ideias é supérfluo, o que interessa é convencer o eleitorado a votar neles. Isso é seguramente um mau sinal para o PS: significa que os seus dirigentes já estão completamente fora da realidade e parecem convictos de que o eleitorado se convence com duas cantigas – a cantiga da crise e a cantiga da maioria absoluta e da governabilidade. O autismo induzido pelo prolongado exercício do poder fá-los dar como adquirido aquilo que ainda está em disputa, e isso é um primeiro e poderoso passo para virem a ter uma enorme e desagradável surpresa nas noites das eleições que aí vêm. A ausência de alternativas apresentada como uma prova da inevitabilidade do governo do PS é uma falácia: não só a líder do PSD Manuela Ferreira Leite é um “osso” muito mais duro de roer do que a pintam os “spin doctors” socialistas, como a emergência de um líder ganhador na área do centro direita (porventura até com o apoio da actual dirigente) é uma hipótese que parece estar a ser descartada com demasiada facilidade.
Uma boca capaz de retratar o blog do próprio com este desprendimento é certamente uma lufada de ar fresco:
Enfim. Talvez uma desratização [(...) da blogosfera(...)] fosse aconselhável. Mas desse modo também este lugar corria o risco de desaparecer, o que não seria mau de todo. Ou talvez não, porque ao fim e ao resto, isto nem é um blogue. Quanto muito, um desarranjo intestinal experimental.
Se os Estado português, através dos seus órgãos representativos, Governo e Assembleia da República, viu necessidade de aprovar um Sistema Integrado de Avaliação do Desempenho da Administração Pública que pelos vistos será de aplicação generalizada, temos de concluir que o próprio Estado se prepara para tornar a avaliação de desempenho numa alavanca do desenvolvimento do País (que em muito ultrapassará a singela avaliação de professores e médicos). Não parece que seja despropositado por isso que essa avaliação de desempenho seja alargada a todo o universo do serviço público, designadamente à função política. Dir-me-ão que os políticos vêem o seu desempenho automaticamente avaliado regularmente, nas várias eleições, mas nesse aspecto estou em desacordo: isso só seria verdade se o eleitorado tivesse como instrumento de apoio à decisão uma verdadeira e real avaliação do desempenho dos políticos que cessam um mandato e se propõem ser eleitos para novo mandato. Por exemplo: Das medidas mais emblemáticas dos programas dos governos e das autarquias locais, quantas e quais foram concretizadas e estão em funcionamento ? Quantas não se concretizaram e porquê ? Que implicações orçamentais tinha cada uma das medidas propostas ? Que cobertura orçamental tinha cada uma das propostas ? Que causas são apresentadas para a invariável explosão de custos relativamente a cada obra – sobrecustos que chegam aos 200 e 300% do cálculo inicial ? Que despesas podem ser indicadas como desnecessárias ou menos necessárias na perspectiva que razoavelmente haveria à data das decisões que as aprovaram ? Das leis e Decretos-Lei mais importantes, quais e quantos foram alvo de rectificações posteriores e que rectificações teriam sido desnecessárias se houvesse um pouco mais de qualidade na legislação inicialmente aprovada ? Depois de uma verdadeira avaliação feita em moldes sérios e razoáveis, estou certo que as opções do eleitorado seriam bem diferentes. É certo que nas democracias ocidentais conhecidas, essa avaliação de desempenho, que no fundo é um controlo de qualidade, é normalmente exercida pelos partidos políticos da oposição e pela imprensa escrita e audiovisual – mas isso não funciona em Portugal porque os partidos da oposição fazem uma fraca figura (e invariavelmente não cumprem o seu papel escrutinador) e porque os jornalistas portugueses precisam – eles próprios e urgentemente ! - de um sistema de controlo de qualidade do serviço que prestam.
Uma expressão brasileira em cuja formulação sintética reside um mundo de significado, para designar os meninos assessores dos vários poderes públicos, boys que não sabem nada de nada e nada fazem: Aspone, Assessor de Porra Nenhuma.
Para o (a) cidadão(ã)que percorre a blogosfera procurando os preços das Silent Guitar, aqui vão umas dicas:
Tenho uma Silent de cordas de nylon e braço clássico que no mercado português custa entre 450 a 500 €. Vi uma igualzinha à venda na Lismúsica, em Lisboa, não reparei no preço mas tenho a ideia de que estaria pelos valores que acima referi, pelo menos não me lembro de nenhuma disparidade para mais ou para menos relativamente àquilo que custou a minha.
A minha apreciação geral é a de que a viola é bastante boa e vale o que custa, ou seja, tem a qualidade que seria exigível em qualquer viola que custe o que ela custa: a escala é impecável, o som é cheio e regulável (tem duas posições de reverb num selector da própria viola. Fiz-lhe apenas uma pequena alteração (que aliás já fiz em quase todas as violas que tenho): substituí-lhe o cavalete-pestana de cima por outra peça, feita de osso e um pouco mais baixa - trabalho artesanal feito em casa. O resultado dessa operação é o de a escala ficar mais baixa, facilitando a manobra dos sons, em especial nas melodias em que os dedos têm de correr a escala com mais rapidez. A viola é também especialmente oportuna naquelas ocasiões em que a família está a ver televisão e a mim me apetece tocar um bocado - enfio-lhe os auscultadores e passo a ouvir o que toco com toda a qualidade de som, em circuito fechado, isto é, cortando o som externo - toda a gente fica satisfeita, ninguém chateia ninguém e o guitarrista pode espraiar-se à vontade. Em suma: para quem tenha as 500 brasas, vale a pena.
Um comentário de “Cheiro a Jasmim” ao meu anterior post sobre a blogosfera, suscita-me uma nova reflexão. Nunca gostei do anonimato, que é muitas vezes o pai (e a mãe) das maiores pulhices que se podem dizer e fazer. Mas concordo que ele tem que ser aceite por duas ordens de razões: Por um lado, há situações de assédio ou que de alguma forma geram a extrema debilidade de uma das partes, em que a única forma de furar o bloqueio é a denúncia anónima. Por outro lado, reconheço que se vai instalando uma cultura específica na blogosfera em que a designação de fantasia é a regra (eu próprio, ao assinar “100anos” estou a praticá-la), sem preconceitos e sem segundos sentidos – há uma real tentativa de troca de ideias com base exclusivamente no seu conteúdo e não já em função da identidade das pessoas que as vão veiculando, que é salutar e positiva. Mas há o outro lado do anonimato: a multiplicação do insulto baixo, da boca soez, da simples grosseria, que sempre existiram (pois a blogosfera não inventou o anonimato) mas que agora são muito mais directos e contundentes, devido justamente à amplitude que a blogosfera lhes proporciona e devido ao aumento exponencial de utilizadores da net; é um sub-produto de qualquer debate generalizado que com a blogosfera ganhou nova e maior visibilidade. Trata-se de gente que ultrapassou as barreiras de contenção e educação correntes na nossa sociedade e se “passou”, por alguma boa ou má razão, para uma dimensão em que já só dialoga com os outros à batatada, ao pontapé, ao insulto e à injúria; é gente muito radicalizada com quem é quase sempre impossível dialogar. Aquilo que essa malta escreve nada tem a ver com aquilo que escrevem os comentadores de nomes fantasiosos já referidos e no entanto todos se integram na realidade blogosférica. Na minha opinião, o que há a fazer é utilizar as mesmas ferramentas tecnológicas e rapidamente, sem piedade, suprimir os comentários abusivos, se eles ultrapassarem os limites que pré-definimos como aceitáveis. Isso não é censura: é manter a casa limpa.
Sobre o que é a blogosfera e que tipo de comunicação ela veicula, já se escreveram e estão a escrever teses de mestrado e doutoramento.
Creio que é que é necessário situar essa realidade no contexto.
E o contexto é o seguinte:
Há 10 anos não existia a blogosfera, existia a Web e o e-mail, que eram manobrados por protagonistas mais ou menos conhecedores, entusiastas e de boa fé.
Entretanto o número de pessoas ligadas à net cresceu exponencialmente e hoje há uma imensa multidão de internautas que são quase totalmente analfabetos em termos de net: não conhecem os perigos mais evidentes (vírus, intrusão, furto de identidade digital) e não têm a menor noção da “nettiquette” (aliás a própria “nettiquette” tem sofrido grandes evoluções, a meu ver, para pior, em função da massificação dos internautas analfabetos).
Entretanto apareceu a blogosfera.
Repare-se que nos primeiros anos para se fazer uma página na net era preciso saber fazer programação em “html”, o que restringia muito o número de protagonistas.
Com as ferramentas informáticas entretanto aparecidas, que tornaram numa operação facílima a conversão de textos para hipertextos (Word, Frontpage) e principalmente com o desenvolvimento da blogosfera, passou a ser possível a qualquer pessoa com um equipamento mínimo e quase sem conhecimentos especiais tornar-se protagonista principal.
A aldeia global, que era razoavelmente equilibrada e auto-regulada, passou a ser devassada por imensas hordas de cavernícolas.
Com o anonimato tido por coisa normal e até louvável, passou a chover peçonha e lixo por todos os lados.
Os últimos 5 anos foram assustadores: é raro apanhar uma página na net que não contenha umas quantas imbecilidades – contras as quais não há nada a fazer, pois derivam do baixo nível generalizado dos internautas e esse nível só poderá subir com poderosas alavancas culturais generalizadas.
Nada disso acontece por enquanto.
Creio que estamos numa fase de completa barbárie na Internet, mas essa barbárie poderá ser o princípio de qualquer coisa melhor.
Apercebo-me vagamente que há um(a) leitor(a) que já cá veio 2 vezes para tentar obter a letra da canção Tous les garçons et les filles da Françoise Hardy. Aqui vai ela (não quero que falte nada aos leitores que se dão ao trabalho de visitar a este blog).
Tous les garçons et les filles Françoise Hardy
Tous les garçons et les filles de mon âge se promènent dans la rue deux par deux tous les garçons et les filles de mon âge savent bien ce que c'est d'être heureux et les yeux dans les yeux et la main dans la main ils s'en vont amoureux sans peur du lendemain oui mais moi, je vais seule par les rues, l'âme en peine oui mais moi, je vais seule, car personne ne m'aime
Mes jours comme mes nuits, sont en tous points pareils sans joies et pleins d'ennuis, personne ne murmure "je t'aime" à mon oreille
Tous les garçons et les filles de mon âge font ensemble des projets d'avenir tous les garçons et les filles de mon âge savent très bien ce qu'aimer veut dire et les yeux dans les yeux et la main dans la main ils s'en vont amoureux sans peur du lendemain oui mais moi, je vais seule par les rues, l'âme en peine oui mais moi, je vais seule, car personne ne m'aime
Mes jours comme mes nuits sont en tous points pareils sans joies et pleins d'ennuis oh! quand donc pour moi brillera le soleil?
Comme les garçons et les filles de mon âge connaîtrais-je bientôt ce qu'est l'amour? comme les garçons et les filles de mon âge je me demande quand viendra le jour où les yeux dans ses yeux et la main dans sa main j'aurai le cœur heureux sans peur du lendemain le jour où je n'aurai plus du tout l'âme en peine
le jour où moi aussi j'aurai quelqu'un qui m'aime
PS - se quiser ver a belle petite a cantar, voilá, cliquez ici.
Há os blogs que se comprazem em olhar para o blogger e os amigos. Há os blogs que se dedicam à política pura e dura. Há os blogs que se dedicam à pura maledicência. Há os blogs onde o ódio pessoal a este ou àquele se sobrepõe a tudo o mais. No meio deles lá se vão encontrando coisas de jeito, mas para isso é mister engolir toneladas de inutilidades. Aumenta o lixo por todos os lados. A blogosfera corre o risco de sufocar no meio de tanto lixo. Isto está uma grandecíssima seca !
Estou desesperadamente carente de uma boa leitura. Esgotei toda a literatura cá de casa. Já reli uma data de livros. Com este apetite louco de ler, marcha tudo, das publicações mais mesquinhas às obras mais galardoadas. Estou sem imaginação. Alguma alma caridosa me indica duas ou três obras literárias dignas desse nome que estejam à venda, possam ser lidas e não “esfolem” a carteira do leitor ?
Sou daqueles que gosta de dar uns toques na viola, sem compromisso e sempre na base de fazer o que me dá gozo. Tocar viola com gosto implica querer conhecer cada vez mais – como são feitas as violas, qual o som que podemos esperar de cada uma delas, como se fazem certos passos sonoros encantatórios, quais os passos essenciais para se comprar uma viola nova, etc.. Aqui vão alguns links muito bons sobre a matéria:
Cada um destes sites dá acesso a dezenas de outros sites igualmente interessantes sobre estes temas.
Se este tipo de facilidades existisse há uns 25 anos, eu hoje seria de certeza músico profissional.
Como não existia, sou apenas um curioso da guitarra.
Apanhei ontem esta preciosidade na net. O Guitarrista chama-se Peter Mulvey e a composição Black Rabbit. A simplicidade e a beleza que este homem consegue pôr nos dedos a correr na viola é de cortar a respiração. Obtive este material a partir do do blog Acoustic Guitar, do qual voltarei a falar em breve. Enjoy.
Depois de levarem o país a fazer uma despesa sumptuária com estádios de futebol que funcionam meia dúzia de vezes por ano, para o Euro/2004;
Depois de terem levado autarquias e clubes quase à falência para o enriquecimento exponencial da “malta do betão”;
Depois de terem imposto uma pesada dívida a todos os portugueses, que levará ainda muitos anos a pagar,
Hélas ! - a rapaziada do futebol descobriu o...Mundial/2018 !
Serão mais uns valentes milhões para o circo, que seremos todos a pagar – e a dívida começa a ser perspectivada 9 anos antes.
A braços com uma crise económica de enormes dimensões, num universo de gente a empobrecer rapidamente devido ao desemprego e aos baixos salários, com os novos pobres e excluidos a aparecerem por todo o lado, a malta do futebol lembra-se de nos meter em mais uma pesada dívida - para o pagamento do circo deles.
Isto só tem uma qualificação: é inacreditável.
A prolixidade é uma das características dos tempos que correm, onde o nivelamento é feito por baixo e onde as pessoas que falam e escrevem bem são cada vez mais raras.
Já alguma vez ouviram um dirigente de qualquer coisa declarar “eu espero e desejo e acredito e creio que...” ?
Pois.
O que menos preocupa o trapalhão é o facto de ter dito quatro vezes de seguida a mesma coisa numa única frase - se calhar até o fez de propósito, repetindo o discurso com pequenas variantes para encher o ouvido do público, mas nem por isso o seu discurso deixa de ser um monumento ao que há de mais piroso na língua portuguesa.
No decurso da minha aprendizagem alguém me explicou que a melhor forma de me exprimir seria dizer as coisas o mais sinteticamente possível, secamente, sem grandes adornos, com a preocupação maior de apelar à cultura e à inteligência do meu interlocutor.
É o que ainda hoje tento fazer.
E é por isso que não tenho a menor paciência para o hiper prolixo discurso político e mediático, cujos destinatários são obviamente imaginados como uma cambada de patetas alegres iletrados, semi-analfabetos, com um QI abaixo dos mínimos olímpicos e – principalmente – desprovidos de memória.
A prolixidade do discurso é o primeiro passo para a sua desqualificação.
Há expressões recorrentes no nosso léxico jurídico que me deixam perplexo.
Certamente que haverá razões lógicas para cada uma delas, mas nem por isso deixam por vezes de impressionar.
Estou a pensar naquela expressão que aparece muito em textos de direito de família - “as partes contraíram casamento em tal data...”.
Nunca gostei dessa expressão, “contrair casamento”, que acaba por funcionar (muitas vezes ainda em sede de processo, onde frequentemente o marido e a mulher andam à batatada um com o outro) como expressão funesta, tipo “contraíram uma doença contagiosa” (e – como se vê – grave, tão grave que ela tem que ser debatida em tribunal).
Pois eu, decididamente, nunca “contraí” casamento – limitei-me a casar honesta e saudavelmente com a minha mulher, que, por sua vez, também nunca “contraiu” tal doença.
Se calhar é por isso que ao fim de alguns anos largos de casamento continuamos casados - somos descontraídos.
Se temos “contraído” a doença, de certeza que já estávamos divorciados:):):)
Acho indecente ! Noticiaram os jornais que os “amigos do alheio” andaram especialmente activos nas noites de consoada e de Natal, assaltando casas onde não se encontravam os seus proprietários. Não acho indecentes os assaltos em si: dentro do espírito das actuais leis penais pelas quais o nosso pundoroso governo se tem tão nobremente batido, não posso deixar de considerar que os pobres assaltantes são vítimas de uma sociedade que nunca lhes deu oportunidades, nasceram num bairro de lata, o pai foi preso por ter “feito” umas poucas de carteiras, a mãe, coitada, é melhor nem falar, a bem dizer nós é que somos os culpados dos crimes dos rapazes... O que eu acho realmente indecente é que os moços sejam obrigados a trabalhar em dias feriados e santos de guarda, sem direito a descanso e estando em dúvida mesmo o pagamento de horas “extraordinárias”. E acho mal também a polícia andar a persegui-los, enquanto os “colegas” da banca e da alta finança roubam milhões e são presença assídua nas festas da beautiful people, sem ninguém os incomodar. Ou há moralidade ou comem todos ! Gatunos de todo o mundo, uni-vos ! Isto é ou não um Estado de Direito ???? Roubar, sim, claro, mas com remuneração e condições de trabalho dignas !
Gosto de cozinhar, acho que numa encarnação anterior devo ter sido cozinheiro.
A minha história é clássica.
Durante mais de 40 anos a culinária foi para mim um mistério.
Um dia deu-me para perguntar à Senhora minha Mãe como é que se fazia a bela feijoada que se comia em casa de meus pais.
Ela olhou-me algo duvidosa e começou a explicar, mas eu pedi-lhe uma curtíssima dilação para pegar numa caneta e num papel – e comecei a escrever as suas sábias palavras.
Nesse dia logo que cheguei a casa sentei-me ao computador e registei religiosamente as indicações da minha progenitora.
Assim nasceu a minha primeira receita informatizada.
O resto (não é para me gabar) é uma história de sucesso: comecei a confeccionar pratos e mais pratos e alarguei o meu reportório culinário ao caril, ao arroz malandro, ao arroz de marisco, à sopa de legumes, ao peixe assado no forno, ao frango assado no forno, ao polvo cozido e em vinagrete, etc..
Hoje sou um cozinheiro cheio de pergaminhos – li há uns tempos numa revista qualquer que os homens que sabem cozinhar e usam a cozinha para cativar pessoas são hoje qualificados de “gastrosexuais”.
Pois bem, assumo: sou um gastrosexual !
No exercício de tais funções, dirigi-me aqui há dias a um supermercado onde fiz diversas compras, entre as quais... uma galinha, pensando que era um frango.
Hoje assei o “frango/galinha” no forno.
Desastre !
Catástrofe !
Miséria !
A estúpida da galinha estava dura como cornos e era preciso ter dentes serrilhados para a conseguir comer.
Ficou para a gatinha – a minha fiel Tareca adora algumas das minhas facetas culinárias, exactamente aquelas que para mim são menos compensadoras – tem dentes serrilhados...
A minha Mulher nem tocou na galinha e eu não a posso censurar por isso.
O sacrista do puto claro que preferiu pizza.
Ó vã glória efémera, ó vã cobiça !
Apesar de tantos e tais pergaminhos, gastrosexual embora, sou um candidato ao desemprego !
Recebi centenas de mensagens de e-mail e umas dezenas largas de SMSs a desejarem-me um feliz Natal e um próspero Ano Novo.
Com tanta gente a fazer força, desconfio que nem o Pai Natal nem mesmo Deus Nosso Senhor terão a distinta lata de fazer a desfeita a tão acrisolados votos. Razões de sobra, portanto, para acreditar que vou ter um feliz Natal e um próspero Ano Novo. Dir-me-ão que isto é a lógica da batata - mas se ela impera urbi et orbi, porque é que a minha batata há-de ser menos que as outras ?
O Natal é a festa do solstício de Inverno, que se faz desde muito antes do nascimento de Cristo. Para aqueles que, como eu, tentam viver essa festa pagã com o espírito dos agnósticos, a questão fundamental é conviver um pouco com a família e papar as iguarias gastronómicas adequadas à quadra. Sem falar nas prendas, que frequentemente são uma seca mas que volta e meia surpreendem pela excelência. Saudemos o novo ano que está aí a rebentar.
É um gosto reler este autor, que se está a tornar num clássico. As descrições cheias de imaginação que faz da Roma clássica, as análises dos personagens, tudo repassado de uma sólida cultura clássica, levam a que se leia Steven Saylor com uma atenção especial. Volta e meia faz uma alusão vaga que pressupõe que o leitor também tem alguma cultura – por exemplo, uma referência quase irrelevante de uma certa Clódia ao “tempo das Sabinas” pode levar à conclusão sobre o tipo de família patrícia a que pertence (in casu, é descendente do ramo dos Cláudios que por razões de conveniência política fizeram o nome reverter para Clódio – só a história destes Cláudios dava para um volume interessante e prenhe de detalhes). Saylor descreve-nos uma sociedade em que os muito ricos convivem com os remediados e todos com a pobreza extrema e principalmente com o fenómeno da escravatura. No “Lance de Vénus” descreve-se um panorama em que os escravos estavam muito baratos e eram tratados como coisas mais ou menos rentáveis: se um escravo ficasse doente mais valia deixá-lo morrer e comprar outro... Se um escravo por mero acidente presenciasse uma cena incómoda para o dono, este poderia livrar-se dele e vendê-lo para as minas – ser escravo numa mina era o penúltimo degrau da escravatura, onde a morte prematura e rápida era uma quase certeza – o último degrau era, decerto já o adivinhou, ser escravo nas galés. Saylor desenvolve um enredo em que uma capitosa Clódia, sensual, provocadora e... rica, resolve empregar os seus dotes de deusa erótica no bom do Gordiano, detective de meia idade, casado e pai de filhos, que fica derreado cada vez que a outra o envolve no seu perfume. Convenhamos que não devia ser brinquedo enfrentar os ataques erotico-punitivos da bela patrícia e ao mesmo tempo desvendar o crime em que ela parece estar envolvida.
Nunca gostei de Frank Sinatra. Não gostei da sua música, nunca gostei da sua imagem, detesto os postulados implícitos do seu discurso marialva de “self made man” e sinto pele de galinha pela tradução política dos valores que parece defender (que coloco na ultra-extrema-hiper-direita). As poucas músicas que conheço dele (poucas, porque a maior parte delas entrou-me por um ouvido e saiu-me por outro) – de onde sobressai o incontornável “My way” - parecem-me um produto bem acabado de “showbiz” à americana. É sem dúvida um produto bem acabado, mas no seu conteúdo tem menos autenticidade que as modinhas meio foleiras que os/as cantores/as pimbas debitam nas festas populares de meios provincianos. O leitor ou a leitora têm dúvidas sobre tal afirmação ? Então peguem no “My way”, traduzam aquilo e vejam qual é o resultado líquido daquele discurso. Aquilo que lá se diz, descodificado é que “sou o maior porque faço o meu caminho à minha maneira”. Ora meus caros leitores, todos nós fazemos o nosso caminho... à nossa maneira – se é por isso, somos todos, sem excepção, os maiores, tanto como o Frank Sinatra. Musicalmente, o produto é menor, se comparado com aquilo que produziram outros norte-americanos contemporâneos de Sinatra, como Bob Dylan, Jimi Hendrix, Elvis Presley (este também bastante na linha do “showbiz”), Carlos Santana, Paul Simon e tantos outros como Crosby Stills Nash & Young. Decididamente, a música de Sinatra não tem qualidade que se compare. Foleiro por foleiro, prefiro a música pimba cá do burgo. Aqui há tempos, estava eu a jantar alegremente num restaurante do Litoral alentejano, em S. Torpes, e começa a ouvir-se uma canção qualquer do Sinatra; não resisti: prevalecendo-me do facto de ser cliente e conhecido há muitos anos, chamei a empregada-chefe e perguntei-lhe se era possível tirar o Sinatra e... pôr música. Ela respondeu-me com um sorriso de orelha a orelha - e pôs música ! Acho que também não simpatiza com ele.
Há muitos anos que Stephen Stills é um dos meus heróis musicais.
Depois de ter militado nos fantásticos “Crosby, Stills & Nash”, mais tarde com Neil Young (também ele um ícone incontornável), Stephens Stills fez música de alta qualidade, de que destaco o duplo álbum “Manassas”.
Ultimamente deparei com uma nova canção dele, daquelas marcantes: o “treetop flyer”, tocado em afinação “Bensusan” (DADGAD), que é um espanto de equilíbrio e balanço.
Et voilá:
Isto é que é uma silent guitar: uma guitarra feita através de alta tecnologia. A Yamaha esmerou-se: o som é excelente, o braço é muito bom, os carrilhões são de alta qualidade; quando o som é enviado para um bom amplificador o efeito é surpreendente; podemos ter a sensação de estar a tocar numa catedral como podemos ter a sensação mais roqueira possível, ou ainda a sensação de estar a tocar em estúdio, dependendo dos registos em que a vamos tocando. À semelhança do que já tinha feito com outras violas, em colaboração com o senhor meu irmão, que é jeitoso de mãos e sabe trabalhar com ferramenta a sério, coloquei-lhe uma nova “pestana” em cima (costumam chamar-lhe “cavalete”, mas eu desde jovem que lhe chamo pestana, provavelmente por influência dalgum amigo tão ignorante como eu, e já me habituei). Com a mudança da pestana as cordas ficaram muito próximas da escala, o que facilita a acção do guitarrista – como diz um amigo meu, as minhas violas são todas “quitadas”. Uma viola destas é um desafio: quando se lhe pega, ela envia ao guitarrista aquela mensagem íntima dos bons instrumentos, tipo “vê lá se tocas alguma coisa de jeito porque o material é de primeira, não tens desculpa”. É levíssima, não tem caixa, praticamente a viola é o braço, o resto é fibra a imitar a forma do corpo de uma viola de caixa. Por enquanto limito-me a explorar as possibilidades da guitarra – mais tarde pensarei noutros vôos.