Blog que trata dos livros, da leitura, da música e da reflexão política e social.


sábado, maio 02, 2009

Feira do Livro de Lisboa


Fui lá hoje.
Ir a uma feira do livro num Sábado à tarde não é grande ideia, mas acabei por me sentir bem, não houve enchente a sério.
Os caminhos do livro são cada vez mais estreitos, à medida que vai alargando a “banda”, já de si “larga”, da rede das redes...
Não é que não estivessem muitas e desvairadas gentes na feira.
Estavam.
Mas a sensação com que fico é que a estas coisas vamos sempre os mesmos – e talvez cada vez menos, porque os que “quinam” nas esquinas da vida são em número superior aos novos aderentes das delícias da leitura.
Eu, como leitor compulsivo de livros, não resisto à tentação de pôr a manápula numa série de livros a quase metade do preço de tabela (os livros que normalmente custam 20 € estavam a 10 ou 12, mais coisa menos coisa).
Comprei vários livros do Amin Maalouf, do Fernando Campos e do meu querido e sempre venerado Conan Doyle.
Não comprei nem um único livro técnico – nem olhei para as bancas respectivas, o que, confesso, me deu um certo e secreto gozo.
Das minhas incursões nos novos livros darei notícia futuramente, se for caso disso.

sexta-feira, maio 01, 2009

Dinheiro vivo


De como os partidos políticos conseguem transformar um país que já foi de gente séria numa república de opereta.
No fundo, o que é preciso é que o carcanhol não falte na maleta.
João Miranda, do Blasfémias, diz - e muito bem - que
"Se eu tiver 1 milhão de euros e disser que foi o Jacinto Leite Capelo Rego que me deu, é enriquecimento ilícito.
Se um partido político tiver 1 milhão de euros e disser que foi o Jacinto Leite Capelo Rego que o deu,
é um caso de cidadania."

Gata


Gatinha com ideias luminosas

(clique na imagem para a ver em grande)

As virgens experimentadas

Uma vez perguntaram a uma rapariga se ela era virgem e ela respondeu, depois de alguma reflexão, que era uma “virgem experimentada”.
É essa figura que me lembram os deputados da nação que falam em “transparência” a propósito das novas oportunidades de “dinheiro vivo” a entrar para os partidos, consagrada na recentemente aprovada lei do financiamento dos partidos.
É realmente o que eles são – umas virgens “experimentadas”.
Todos eles, com uma única e honrosa excepção – o deputado José António Seguro.

1º de Maio

Viva o dia internacional dos trabalhadores !
De caminho, venha daí algum "dinheiro vivo" para a gente preparar condignamente a efemérida, perdão, a efeméride.

Nova lei do financiamento dos partidos





É com dinheiro vivo que "elas" se fazem.

Cheques, transferências bancárias ou depósitos em conta deixam sempre muito rasto.

Se o dinheiro for de proveniência duvidosa deve ser vivinho da silva.

E eu estou varado com a "lata" dos políticos - é que têm um desplante que deixam um tipo engasgado.
É por estas e por outras que há muito que não voto em eleição nenhuma.

domingo, abril 26, 2009

26 de Abril

Pela primeira vez nos últimos 35 anos não celebrei o 25 de Abril.
Sinto-me demasiado desencantado, enganado e indignado com o regime democrático.
Claro que o 25 de Abril valeu a pena apesar de tudo, mas, que diabo, 35 anos depois isso é muito pouco.

sábado, abril 25, 2009

Valem zero


Esta gente leva-se muito a sério.
Nós, europeus ???
Então e... nós, tachistas, nós, vígaros da alta finança, nós, políticos que os protegemos, nós, portugueses que apertaram o cinto para nada, nós, afogados em processos de corrupção ?...
Então se eles é que são europeus, os dos outros partidos são o quê ?
Estrangeiros, alienígenas, extra-terrestres ?
Palavras balofas, cheias de vento, procura-se-lhes um significado, um conteúdo útil - e nada.
Não se vê um projecto, não se vislumbra uma estratégia, não se percebe rigorosamente nada das suas ideias sobre a Europa.
Valem zero.

sexta-feira, abril 24, 2009

El Mojado

O Molhado - é um hino lindíssimo contra o racismo e os nacionalismos autoritários.
Absolutamente imprescindível de ouvir e seguir a letra.



El Mojado(?)
Empacó un par de camisas, un sombrero,su vocación de aventurero, seis consejos,7 fotos, mil recuerdos,
empacó sus ganas de quedarse,su condición de trasformarseen el hombre que soñó y no ha logrado,
dijo adiós con una mueca disfrazadade sonrisa y le suplicó a su Dios crucificadoen la repisa el resguardo de los suyos,
y perforó la frontera como pudo.
Si la luna suave se deslizapor cualquier cornisa sin permiso alguno, por qué el mojado precisacomprobar con visas que no es de Neptuno.
El mojado tiene ganas de secarse,el mojado está mojadopor las lágrimas que bota la nostalgia;
el mojado,el indocumentado, carga el bultoque legal no cargaríani obligado
el suplicio de un papello ha convertido en fugitivo,y no es de aquí, porque su nombreno aparece en los archivos,ni es de allá porque se fue.
Si la luna suave se desliza por cualquier cornisasin permiso alguno, por qué el mojado precisa comprobar con visas que no es de Neptuno.
Mojado sabe a mentira,tu verdad sabe a tristeza,la ansiedad de ver un primo y soñar con la veredaque conduce hasta tu casa.
Mojado,mojado de tanto llorar, sabiendoque en algún lugar te espera un beso, haciendo pausa desde el dia que te marchaste.
Si la luna suave se desliza por cualquier cornisasin permiso alguno, por qué el mojado precisa comprobarcon visas que no es de Neptuno.
Si la visa universal se extiende el dia en que nacemosy caduca en la muerte, por qué te persiguen, mojado,si el cónsul de los cielos ya te dio permiso.

Puxar a sua própria bicicleta




Cada um tem que pedalar na sua própria bicicleta...
Pois.
Quando se anda num BMW topo de gama o pensamento chega a ser poético.
O problema é quando se cai na realidade.

quarta-feira, abril 22, 2009

O processo de Moura Guedes contra Sócrates

Ao propor um processo contra Sócrates em virtude do que ele disse ontem sobre os telejornais de 6ª Feira da TVI, Manuela Moura Guedes mostra que não é melhor que ele.
Não é que eu esperasse dela uma atitude com classe: as bocas que manda, as boquinhas que faz, os apartes coloquiais que faz no telejornal, a conversa de café que adopta, as interrupções constantes aos seus convidados impedindo-os de alinharem duas ideias seguidas, a superficialidade do seu discurso, a sua postura de garota mimada e espevitada já não auguravam nada de bom, é certo.
Mas era expectável que tivesse bons assessores que a aconselhassem com um mínimo de sensatez.
Pelos vistos não tem.
Processa o Primeiro Ministro por este dizer, por outras palavras, que o seu telejornal é uma boa m...da – então e depois, o homem não tem direito a exprimir uma opinião sobre o jornalismo da madamme ?
Que é feito do acrisolado amor à liberdade de expressão da senhora jornalista ?
Vai perder o processo – e vai ter que engolir uma sentença explicando-lhe porque é que a liberdade de expressão está muito acima dos seus estados de alma.

Adenda: hic et nunc declaro que se por acaso a jornalista Manuela Moura Guedes ou qualquer outra pessoa declarar publicamente que acha este blog – o meu blog ! - uma bela trampa, não me passará sequer pelas meninges processar essa pessoa que, se calhar, até tem alguma, ou muita ou toda a razão.

Tragédia gastronómica

Já me tinha habituado aos elogios da família e amigos às minhas artes culinárias.
Levado pela soberba, abalancei-me a fazer uns filetes de pescada e de palmeta, na base do “olhómetro”, sem apurar preto-no-branco quais os seus ingredientes e o “modus faciendi”.
Foi uma tragédia.
Os filetes de palmeta ficaram piores que os de pescada.
Os de pescada ficaram uma boa m...da.
Todos ficaram com ar suspeito, com ar de refugo de restaurante de terceira categoria e um gosto esquisito difícil de qualificar.
O meu filhote declarou que não tinha fome e escapou-se para o quarto – vim a descobrir que comeu depois discretamente uma taça de cereais e umas salsichas de lata.
A minha segurança como cozinheiro está profundamente abalada – é que nem sequer tenho a consolação de pensar que estou a ser alvo de uma injustiça porque aquilo estava mesmo mau.
Terei de recomeçar a minha carreira culinária do zero.

Entrevista de Sócrates à RTP


Sócrates produz um discurso desleal (porque pretensamente respondendo a perguntas, mas sem lhes dar resposta alguma), irrealista e sempre arrogante.
Inteiramente de acordo, portanto, com
Rui Costa Pinto, aqui:
Sócrates abalado
A entrevista de José Sócrates revelou um primeiro-ministro abalado, reactivo e justificativo. Apesar de negar a evidência comentada por todos os analistas, José Sócrates tentou alijar o peso das críticas presidenciais, sem conseguir disfarçar a irritação (impotência)
.(...)

Realmente, este homem não parece um político – parece um apóstolo fanático sem rasto de cultura democrática: julga-se um iluminado que nunca errou e jamais errará e parece genuinamente incomodado (e irritado) por nem toda a gente dar isso de barato.
Ter um Primeiro Ministro destes é dramático para qualquer país; para Portugal, sem grandes tradições democráticas e com uma sociedade civil muito débil, é trágico.

domingo, abril 19, 2009

BMWs parlamentares




A Assembleia da República resolveu comprar novos carros para alguns dos senhores deputados.
Foram 14 BMWs topo de gama com um custo total rondando os 900.000 euros.
Veja-se aqui a reportagem da TVI.
Comentário: eu também tenho um BMW, não é um topo de gama, mas anda bastante bem.
A diferença é que o carro, o respectivo seguro e a sua manutenção foram/são pagos por mim e não pelo erário público.
A culpa é minha, claro: quem me manda a mim não ser deputado ???
A única consolação que tenho é a de que o meu BMW, não sendo parlamentar, não é também para-lamentar.

sábado, abril 18, 2009

Mais vale tarde que nunca

Manuela Ferreira Leite na TSF:
«A justiça atravessa hoje em Portugal uma fase muitíssimo complexa. Para além de outros factores que já fragilizaram o sistema de justiça, o Engº. Sócrates acrescentou a este sistema o ataque e uma intencional desqualificação dos agentes deste sector», afirmou Manuela Ferreira Leite.
«Por isso, actualmente existe uma enorme incomodidade e revolta entre os magistrados mas o que é mais preocupante no sistema de justiça é o descrédito dos cidadãos face ao funcionamento do sector».

Comentário: é pena que a Tia Manuela só agora se tenha dado conta disso.
É que a actual política governamental para a área da justiça, cujo traço fundamental é a agressão das magistraturas à pala da luta contra os corporativismos, tenha sido iniciada pelos seus dilectos camaradas Aguiar Branco e Paulo Rangel.
Bom, mas em qualquer caso, mais vale tarde que nunca.

Custas dos processos de Entre-os-Rios

O que é previsível – e sempre foi – é que os familiares dos mortos da queda da ponte de Entre-os-Rios, embora condenados em custas, nunca as venham a pagar.
Basta o MP, seguindo ou não uma directiva da PGR (que aparecerá de certeza, se for necessário, pois a dita anda super-hiper-ultra politicamente correcta) escrever três palavrinhas quando o processo lhe fôr presente para efeitos de eventual execução por custas : “não instauro execução”.
Se assim é, e se isso já é previsível há que tempos, porquê este alarido que anda por aí a ressoar em tudo quanto é jornal, rádio e TV ?
Talvez para tornar essa decisão do MP totalmente irreversível.
Mas eu creio que há aqui outro factor: é que aquela malta já não passa sem os holofotes dos media e viu nesta porcaria das custas uma forma de mais uma vez aparecer nos noticiários.
Que tristeza.
É que estas porcarias entristecem mesmo.

Durão ou não ?

Quando um dos vectores fundamentais de uma campanha eleitoral europeia é a querela entre os dois maiores partidos sobre se devem ou não apoiar a continuação de Durão Barroso na presidência da comissão, está tudo dito: isto está cada vez mais na mesma.
Como venho fazendo nos últimos 10 a 15 anos, a minha opção está feita: mais uma vez não voto.

sexta-feira, abril 17, 2009

Senhor Engenheiro

(...)Senhor Engenheiro, dê-me um pouco de atenção (...)

quarta-feira, abril 15, 2009

Porto eliminado pela Manchester United

Mas calma, nada está perdido.
Amanhã os maiores responsáveis dos clubes de futebol iniciarão novos negócios, arranjarão maneira de corromper novos árbitros, farão arranjinhos com autarquias para inflacionar o valor de certos terrenos, negociarão com as autoridades do país a lucrativa construção de mais uma boa meia dúzia de estádios desnecessários, continuarão a fazer do futebol aquele festival de podridão que todos conhecemos.
Tudo na mesma, portanto.
Sursum corda, portanto, não faltarão oportunidades de fazer com que isto fique cada vez mais na mesma...

Sociedade de desperdício

Remetido durante alguns meses ao Alentejo profundo, por mor de obrigações familiares, descobri que estava constipado, com um pingo no nariz.
Como tenho cá poucos lenços, resolvi comprá-los.
Entrei numa lojeca tutti fruti de uma vilória/aldeola improvável e perguntei se tinham lenços.
A menina que estava a atender fez-me um sorriso luminoso e disse-me que sim – conduziu-me ao sítio onde estavam montes de pacotes de lenços de papel.
Perguntei-lhe se não tinham lenços de pano e ela olhou para mim com cara de quem olha um extra-terrestre e disse que não.
Comprei os lenços de papel.
Eram perfumados, com um perfume de bar de p... que me deixou mal impressionado (não tenho nada contra os bares de p..., mas se tiver que ser gosto de ser eu a escolher o cheiro a p..., enfim, adiante).
Depois assoei-me, que bem precisava.
Com essa assoadela foi-se um lenço.
No meu tempo usavam-se lenços de pano que depois de razoavelmente usados eram lavados e postos a servir de novo.
Com os lenços de papel,viste-lo !
Nova assoadela, novo lenço.
Esta merda desta sociedade de desperdício leva a que até uma porcaria de uma ranhoca dê origem a um desperdício.
Por cada constipação o mundo terá que reciclar provavelmente umas boas toneladas de papel.
Que raio de filme !

sábado, abril 11, 2009

O folar da Páscoa



A Senhora minha Mãe, oriunda de Macedo de Cavaleiros, costumava fazer na Páscoa um bolo salgado a que se chamava lá em casa o “Folar da Páscoa”.
Vim a saber mais tarde que há diversos folares da Páscoa e que o folar feito lá em casa se chama normalmente “Bola de Carne” noutras partes de Trás-Os-Montes.
Seja qual for o nome, é uma delícia.
Implica muita paciência, porque há que esperar uma hora a hora e meia para a levedura (fermento) crescer e outro tanto para a massa já feita voltar a crescer.
É uma receita rica, pois leva muitos ingredientes caros, mas actualmente está ao alcance de qualquer bolsa média – sai mais barato fazer um folar em casa para 10 pessoas do que duas pessoas irem jantar fora ao restaurante.
Estou na dúvida sobre se devo divulgar a receita da Senhora minha Mãe, que me foi confiada pela própria, antes de passar a outra dimensão; vou consultar os meus irmãos indagando se acham bem tal divulgação e voltarei à carga, se for caso disso.

sexta-feira, abril 10, 2009

Que chatice !





E depois ainda dizem que querem ganhar as eleições...
Ultima hora: segundo o Público relata, salvaram-se os saltos altos e a lingerie escura - vá lá, do mal o menos.

quinta-feira, abril 09, 2009

O record da estupidez


De chorar a rir - Berlusconi imparável, superando-se a si próprio, volta a melhorar o seu record de estupidez, na feliz síntese do blog Porque me Dizem.

Enriquecimento – II

Vejo que há ainda muita gente confusa com a história do enriquecimento e do ónus da prova.
Já vi escrito várias vezes que a inversão do ónus da prova acabará por obrigar o cidadão a provar que está inocente, quando na verdade era à polícia e ao MP que caberia o encargo de provar que é culpado.
Nada disso.
Insisto que não há inversão do ónus da prova.
Para melhor exemplificar, vou recorrer a um exemplo saído directamente de um conto policial:
Imagine você que tem um ódio profundo por um vizinho - o homem é labrego, burgesso, apanha pielas de caixão à cova e arma tremendas barafundas alcoólicas à porta do prédio, espanca a mulher e os filhos, é conhecido por ser vígaro e dar a sua perninha de ladrão, tem a mania de pôr o carro em 2ª fila e emparedar os carros alheios e ainda por cima aparece depois com cara de provocador perguntando “o que foi ?” quando o dono do carro emparedado protesta.
O tipo é execrável, uma besta completa e V. já uma ou duas vezes perdeu a calma e lhe disse que não se ensaiava nada em lhe dar um enxerto de porrada se ele continuasse a sua senda de anormalidade militante e provocatória; da segunda vez V. foi-lhe aos fagotes e deu-lhe uma murraça no focinho.
Um belo dia V. vai sair de casa e dá com o seu carro emparedado pelo carro do alarve.
Volta ao prédio e toca na campainha do animal.
Ele não responde.
V. chateia-se e vai mesmo lá a casa, encontra a porta aberta e dá com um cenário dantesco – a mulher está desmaiada a um canto, o homem está morto com uma faca espetada no peito; V. tenta ajudar e extrair a faca do corpo do homem, convencido que ele ainda pode escapar.
Passados dez minutos chega a polícia e dá com esta cena: o homem esfaqueado e morto e V. no meio da confusão, coberto de sangue e com uma faca na mão.
Vem-se a descobrir que V. já tinha andado à pancada com o morto e que o tinha ameaçado várias vezes que lhe “fazia a folha”.
A polícia tem a prova praticamente feita: V. chegou ao seu carro, verificou que estava emparedado, foi protestar, zangou-se com o animal, entrou numa cena de pancadaria com ele e no meio da refrega deu-lhe uma facada que o matou.
Por outras palavras: V. foi apanhado numa posição altamente comprometedora, todos os indícios apontam no sentido da sua culpabilidade.
Vai ter que provar que não é o autor do crime, vai ter que procurar testemunhas que saibam mais ou menos o que se passou, vai ter que procurar outros indícios que levem à identificação do verdadeiro autor do crime (a talhe de foice, se isto fosse mesmo um conto policial, eu optaria por uma quadrilha de traficantes de droga ter matado o homem em retaliação a uma “banhada”).
A polícia tinha o ónus de provar que V. é culpado – e prova que V. e o morto tinham péssimas relações, que V. já lhe tinha uma vez afeiçoado as faces, que V. estava na cena do crime imediatamente após o seu cometimento com uma faca na mão que foi identificada como a arma do crime e coberto com o sangue da vítima.
V. tem que provar, naturalmente, todos os factos que contrariem a versão policial.
Houve aqui alguma inversão do ónus da prova ?
Não, não houve.
Ora o cidadão que é dono de um vasto património e que não consegue de forma nenhuma explicar de onde lhe veio aquela massa toda está numa situação semelhante à sua, no exemplo indicado: está numa posição altamente comprometedora.
Caber-lhe-á, tal como lhe coube a si no exemplo acima, provar que apesar de todos os indícios comprometedores, a aquisição da sua fortuna comprovada teve origem lícita.
Não houve igualmente inversão do ónus da prova.

Enriquecimento ilícito e ónus da prova

A dicotomia entre enriquecimento ilícito e ónus da prova está mal compreendida pela rapaziada do PS.
Com cursos tirados ao Domingo e aprovações por “fax”, pois naturalmente que os juristas do PS têm alguma dificuldade em compreender estas miudezas da ciência jurídica.
Vou tentar explicar, como se os meninos fossem muito burros (que não são, são é ignorantes, embora espertalhões).
Ónus da prova é o encargo que incumbe à pessoa que alega um facto que consiste em ter de o provar.
Quem alega um facto tem o ónus de o provar.
Certo ? Nenhuma confusão nessas cabecinhas até agora ? Então vamos adiante.
O que é o enriquecimento ilícito ? É o enriquecimento de alguém através de trapalhices, corrupções, desonestidades, fugas ao fisco, branqueamento de dinheiro, etc..
Um sujeito que ganha 2.000 €/mês e tem uma vivenda que custou 1.000.000 € com toda a certeza que não custeou a vivenda com o produto do seu trabalho, mas pode tê-la adquirido legitimamente: ganhou a lotaria, uma tia velhota e rica deixou-lhe uma choruda herança, a mulher meteu-se num negócio que foi altamente rentável, etc., há mil e uma possibilidades de uma pessoa enriquecer por forma honesta.
Mas se a pessoa em causa não puder provar de onde lhe veio o dinheiro para a compra da vivenda, então há que concluir que o seu enriquecimento foi ilícito (acontece muito nas repúblicas das bananas, em algumas repúblicas altamente subsidiadas e/ou em países onde o dinheiro a entrar “por fora” se tornou um hábito designadamente ao nível do financiamento partidário).
O Ministério Público tem que provar que aquele sujeito, com aquele rendimento conhecido e com todas as outras fontes de rendimento lícito que apresenta, não podia de forma nenhuma comprar a vivenda de 1 milhão.
O sujeito tem o ónus de provar que, pelo contrário, foi com rendimentos lícitos que comprou a vivenda: pode, por exemplo, tentar isaltinar, ou seja, alegar que aquela catrefada de massa que tem são “sobras” de campanhas em que beneficiou de donativos.
Não há aqui qualquer inversão do ónus da prova.
É claro que isto só funciona quando a discrepância entre o rendimento lícito e a fortuna apurada é substancial e muito relevante; casos de pequena corrupção jamais serão detectados através deste mecanismo, dirigido às fortunas substanciais.
É assim tão difícil de compreender ?
Mesmo para juristas formados ao Domingo ?

terça-feira, abril 07, 2009

A Mulher do Cônsul

Um pequeno excerto de uma novela de Steven Saylor, da série Roma sub-rosa, onde se fala de uma Safo muito perigosa.
A Mulher do Cônsul

Francamente — murmurou Lúcio Cláudio, com o nariz enterrado num rolo de pergaminho — quem lesse os relatos das Actas do Dia julgaria que Sertório é um miúdo traquinas, e que a rebelião que organizou em Espanha não passa de uma partidinha inocente. Quando se aperceberão os cônsules da gravidade da situação? Quando se decidirão a agir?
Pigarreei.
Lúcio Cláudio baixou o rolo de pergaminho e ergueu as hirsutas sobrancelhas ruivas.
- Gordiano! Por Hércules, vieste a correr! Senta-te.
Olhei em redor à procura de uma cadeira, mas depois lembrei-me onde estava. No jardim de Lúcio Cláudio, as visitas não andavam a arrastar peças de mobiliário. As visitas sentavam-se nas cadeiras que, nesse preciso momento, eram suavemente posicionadas para o efeito. Avancei para a mancha de luz onde Lúcio estava sentado a gozar o sol, e flecti os joelhos. Como era de esperar, o meu peso foi sustentado por uma cadeira. Nem sequer cheguei a ver o escravo que tratou disso.
— Queres beber alguma coisa, Gordiano? Por mim, estou a tomar uma agradável taça de caldo quente. É cedo demais para beber vinho, mesmo que seja diluído em água.
É meio-dia, Lúcio, não é assim tão cedo. Pelo menos para quem se levantou de madrugada.
(...)
Lúcio inclinou-se para a frente e deu uma pancadinha no pergaminho com a ponta do indicador.
- Lê essa parte. Em voz alta.
- «A traça espeta a cabeça de fora amanhã. Presa fácil para o pardal, mas as perdizes passam fome. Diz a Safo de olhos de fogo: Suspeita! Um punhal atinge o alvo mais depressa que um raio. Melhor ainda: mais depressa que uma seta. Que Vénus conquiste a todos!»
Lúcio recostou-se na cadeira e cruzou os braços carnudos.
- O que achas disto?
- Julgo que lhe chamam uma comunicação anónima; é uma coscuvilhice publicada em código. Sem nomes próprios, só com pistas, sem significado para os não iniciados. Dada a menção a Vénus, imagino que esta seja sobre um caso amoroso ilícito. Duvido que conhecesse os nomes das pessoas envolvidas, mesmo que eles tivessem sido escritos com toda a clareza. Tens muito mais probabilidades do que eu de saber o que tudo isto significa, Lúcio.
— Pois tenho. Na verdade, receio saber mesmo, pelo menos em par-te. Foi por isso que te chamei, Gordiano. Tenho um grande amigo que precisa da tua ajuda.
Ergui uma sobrancelha. Já noutras ocasiões os amigos ricos e poderosos de Lúcio me tinham proporcionado trabalhos lucrativos; e também me tinham obrigado a correr grandes riscos.
- E que amigo é esse, Lúcio?
Ele ergueu um dedo. Os escravos que nos rodeavam retiraram-se silenciosamente para dentro de casa.
- Discrição, Gordiano. Discrição! Lê novamente a notícia.
- «A traça...»
- E a quem foi que eu chamei traça há momentos?
Pestanejei.
- A Décimo Bruto, o Cônsul.
Lúcio assentiu com a cabeça.
- Continua a ler.
- «A traça espeta a cabeça de fora amanhã...»
- Deci decidiu ir amanhã ao Circo Máximo, assistir às corridas do camarote consular.
- «Presa fácil para o pardal...»
- Tira as tuas conclusões... em especial da referência seguinte aos punhais e às setas.
Ergui uma sobrancelha.
- Estás convencido de que há uma conspiração contra a vida do cônsul, com base numa comunicação anónima, publicada nas Actas do Dia? Parece-me um bocado forçado, Lúcio.
- Não sou eu que estou convencido. É o próprio Deci. O pobre sujeito está num estado; veio a minha casa e obrigou-me a sair da cama há uma hora, pedindo-me desesperadamente que o aconselhasse. Precisa de alguém que vá ao fundo desta questão, discreta e rapidamente. Eu disse--lhe que conhecia o homem ideal para isso: Gordiano, o Descobridor.
- Eu? - Olhei, de sobrolho franzido, para um caroço de azeito-na que segurava entre o indicador e o polegar. — Considerando que as Actas são um órgão oficial, certamente que o próprio Décimo Bruto, na sua qualidade de cônsul, estará na melhor posição possível para de-terminar a origem desta notícia, e o seu real significado. Para começar, quem foi que a escreveu? .
- O problema é justamente esse.
- Não estou a perceber.
- Estás a ver essa parte sobre «Safo» e o conselho que ela dá? — Estou.
- Gordiano, quem achas que escreve e edita as Actas do Dia? Encolhi os ombros.
- Nunca pensei nisso.
- Então vou dizer-te. São os próprios cônsules que ditam as notícias relativas à política, interna e externa, fornecendo o seu ponto de vista, que é a posição oficial. As partes menos importantes, os números relativos ao comércio, às contagens do gado, e outros do género, são compiladas pelos funcionários do gabinete do censor. As notícias do desporto são fornecidas pelos magistrados encarregados da gestão do Circo Máximo. Os áugures são a fonte das histórias acerca dos relâmpagos, dos cometas, de legumes com formatos curiosos e de outros presságios bizarros. Mas quem é que pensas que controla as notícias da sociedade, os anúncios de casamentos e nascimentos, as reuniões sociais, as «comunicações anónimas», como lhes chamaste?
- Uma mulher chamada Safo?
- É uma referência à poetisa da antiga Lesbos. A mulher do cônsul também é uma espécie de poetisa.
- A mulher de Décimo Bruto?
- Foi ela que escreveu essa notícia - Lúcio inclinou-se para a frente e baixou a voz.
- Deci está convencido de que ela planeia matá-lo, Gordiano.

segunda-feira, abril 06, 2009

Sócrates vs. Santana

De uma coisa eu tenho a certeza - e tenho a sensação de que esta certeza é partilhada por muita gente: se as confusões do caso Freeport tivessem acontecido no tempo do Santana Lopes, já tinham calçado um par de patins ao "menino guerreiro" há que tempos e já o tinham posto a passar férias num qualquer spa bem rodeado por algumas Barbies sorridentes e bronzeadas.
Com a socrática personagem, é tudo muito diferente.
Sorte a dele, azar do Santana (apesar do spa e das Barbies...).

Muita areia

É sabido que o Primeiro Ministro anunciou publicamente a propositura de uma acção judicial contra o jornalista João Miguel Tavares, por um texto que este publicou num jornal.
Fui ver o texto em causa, para tentar compreender as causas da indignação justiceira socrática.
Não compreendi.
Para além de uma crítica política porventura agreste, não vejo em que é que o referido texto pode ser havido como insultuoso ou difamatório.
Propor esta acção é sinal de uma grande falta de lucidez - basta conhecer um pouco da legislação e jurisprudência sobre a matéria para se concluir que há uma fortíssima probabilidade de o jornalista vir a ser absolvido em juízo.
A instauração do processo só poderá ter uma explicação política.
Mas tentar atingir fins políticos através de acções judiciais pode ser perigoso e em qualquer caso será sempre de resultado muito duvidoso.
Continuo a não compreender - isto é muita areia para a minha camioneta.

domingo, abril 05, 2009

Som triclínico e figuras tristes


Ele há coisas mesmo chatas.
Uma delas é um gajo fazer figura de parvo.
Estou com um melão de todo o tamanho.
Duas das minhas violas estavam a dar um som esquisito, cheio de ruídos e desequilibrado.
Fiz testes e mais testes e o problema continuou.
Bom, meti-me no carro, fiz uns 120 Km e fui pôr a questão ao meu mágico das violas, o Gil Oliveira.
O Gil testou-as de todas as maneiras e feitios e o resultado veio célere: as duas violas estavam impecáveis.
Depois teve a gentileza de me explicar aquilo que eu já devia saber há séculos: muitas vezes o som é prejudicado por detalhes como a falta de terra no amplificador, a falta de fiabilidade de um cabo, o desacerto da configuração do som.
Vim para casa e o problema resolveu-se imediatamente com um “jack” novo, blindado e cheio de efes e erres.
Moral da história: mais vale comprar pouco e bom do que muito e barato – um bom “jack” é essencial para qualquer viola electro-acústica ou eléctrica.
Além do mais evita que o guitarrista faça figura de urso.

sexta-feira, abril 03, 2009

Pressões

Qualquer magistrado está sujeito a pressões, ser pressionado faz parte da profissão.
Mesmo extraprocessualmente há notícia de pressões que podem ser consideradas irrelevantes - a conversa de café, a alegação “de gabinete”, o telefonema do amigo que já não aparecia há 15 anos e por acaso é amigo de uma pessoa interessada num processo.
Os magistrados estão (ou devem estar) preparados para pressões muito mais elevadas, que igualmente não deverão ter sucesso.
Mas quando essa pressão assume a forma de conversa em que como que por acaso é referida a conveniência de o magistrado adoptar certa conduta sob pena de isso se poder repercutir na sua progressão profissional, isso já me parece uma pressão ilegítima e censurável.
Não sabemos se foi isso que aconteceu recentemente no caso Freeport, mas há indicações nesse sentido correndo na imprensa - v. aqui.
Há, por outro lado, indicação de que o Procurador Geral Dr. Pinto Monteiro tentou que os dois Procuradores em causa assinassem um documento atestando que não tinham sofrido pressões e estes recusaram-se pura e simplesmente a subscrever esse documento - v. aqui.
Também me parece estranho que o Procurador Geral e a Procuradora Dra. Cândida Almeida apareçam constantemente nas mais diversas sedes jurando a pés juntos que não há pressões, pois parece uma evidência que não podem conhecer tudo o que se passa com os Procuradores investigadores do caso; seria mais curial esclarecer que “tanto quando saibamos, não há pressões”.
A gestão mediática do assunto pela Procuradoria tem sido desastrosa.
O Dr. Pinto Monteiro presta declarações e envia comunicados sobre o caso Freeport 24 horas depois de ter declarado que não diria mais nada sobre o assunto...
Ele e a Dra. Cândida desdobram-se em aparições mediáticas, banalizando a sua presença nas notícias com declarações repetitivas, arriscando-se a que o tele-espectador se habitue a mudar de canal quando eles aparecem.
E por mais voltas que dêem, não estão a conseguir convencer os cidadãos de que o caso Freeport está a ser tratado com tanta objectividade como os outros.

quinta-feira, abril 02, 2009

Feijão e tacho

O candidato socialista às europeias rejeitou hoje que as eleições para o Parlamento Europeu sejam "a feijões" ou apenas uma “sondagem” para as legislativas, defendendo que se trata do acto eleitoral mais importante de sempre para a Europa.(...)

Comentário: este sujeito está a tresler, já começou a confundir feijões com... tachos.

quarta-feira, abril 01, 2009

Sistema doente

Sistema democrático português «está doente», diz Cravinho.
Para João Cravinho, o facto de apenas o Bloco de Esquerda (BE) se ter manifestado contra a nomeação de Domingos Névoa para presidente da Braval, uma empresa intermunicipal de tratamento de resíduos, é «uma péssima indicação sobre a saúde» do sistema democrático português. (...)

terça-feira, março 31, 2009

Chique a valer

Domingos Névoa, o empresário que foi condenado por tentativa de corrupção do veredor da Câmara de Lisboa José Sá Fernandes, acaba de ser nomeado presidente da empresa intermunicipal "Braval", detida em 2/3 pela Câmara Municipal de Braga.
Confirma-se: está aqui, no Diário do Minho.
Eu até estou engasgado – remeto para os comentários constantes nos blogs indicados.

segunda-feira, março 30, 2009

E o aspirador ?

Um polícia norte-americano apanhou um homem a ter relações sexuais com um aspirador, numa estação de lavagem de carros.
O sujeito em causa foi condenado a prisão por fazer sexo com o dito aspirador.
Vem no Jornal de Notícias.

A pergunta óbvia é: e o aspirador, safou-se ?

domingo, março 29, 2009

Frases geniais

O cérebro é uma coisa maravilhosa...Todos deveriam ter um - não descobri a autoria, mas tiro-lhe o chapéu.

Essa bola eu não apanhava nem que tivesse dois pulmões - defesa central de uma equipa de futebol lusa.

sábado, março 28, 2009

Steeleye Span



Que frescura ! Há quanto tempo não ouvia isto - e que falta que me fez.

quinta-feira, março 26, 2009

Stairway to Heaven



Bela interpretação do "Stairway to Heaven" em viola clássica, por Peo Kindgren

quarta-feira, março 25, 2009

Esta besta


Esta besta reafirma que câmaras de gás foram "um detalhe" da Segunda Guerra.
O que me impressiona é que este animal já foi merecedor dos votos de 15% dos franceses.

Autocracia Fascizante

(...) Uma Autocracia Fascizante medra melhor no embrutecimento e na superficialidade gerais. Foi o que foi promovido largamente sob o nome mentiroso de 'reformas'. E esta legislatura, com os seus cortes em tudo e em todos, menos no apparatchik político do PS em Corte, colocado nas melhores tetinas do Estado, já mostrou de que matéria é feita, qual a sua consistência, por que zelos rendosos prioritários se rege(...)

Isto é o que consta no PALAVROSSAVRVS REX a propósito da política cultural do actual governo.
São palavras duras e chocantes, até porque não são de todo despropositadas.
É que o governo PS transformou o regime numa autocracia, sem dúvida nenhuma - o "posso, quero e mando, porque eu é que fui eleito" torna-se tristemente recorrente.
Mas... fascizante ?
O que é que caracteriza o fascismo "qua tale" ?
A bufaria ? o PS tem-na - e não é pouco.
A subida em flecha de lambe-botas por metro quadrado ? Idem idem, aspas aspas.
A polícia política ? Por enquanto ainda não há, mas já há super-polícias cujo papel não é de todo tranquilizador.
Resumindo: a democracia portuguesa, que Deus tem, já conseguiu transformar-se numa autocracia; se é ou não fascizante, a ver vamos.

terça-feira, março 24, 2009

Neil Young




Neil Young, mostrando um mundo miserável e cantando (espero bem que ironicamente) "Keep on rocking in the free world".

Um must.

Papel higiénico

Esta cidadã vai precisar de muito mais papel higiénico do que à partida pareceria necessário...

segunda-feira, março 23, 2009

Gato escondido com rabo de fora


Sempre ouvi dizer que o bom jornalista é aquele que não é notícia, o que se apaga perante o mundo noticioso.
Parece que hoje já não é assim.
Ofuscados pela imagem que têm da sua importância, os jornalistas passam a ocupar cada vez mais o palco dos acontecimentos, a ponto de frequentemente não se saber onde acaba a notícia e começa o auto elogio narcisista.
E cada vez mais essa realidade é perceptível mesmo em pequenas coisas.
Veja-se o anúncio das entrevistas.
Dantes dizia-se que fulano ou beltrano deu uma entrevista assim assim ao jornal ou à rádio.
Pois os senhores jornalistas conseguiram dar a volta ao texto e hoje são eles que fazem o estrelato das entrevistas mesmo no seu anúncio: agora invertem os papéis mesmo em teoria e frequentemente vemos anunciada a entrevista do jornalista tal ao entrevistado tal.
Na TSF vemos com frequência o fenómeno: “não perca a entrevista de Paulo Baldaia e de João Marcelino ao Ministro fulano”.
Em vez de se anunciar a entrevista do Ministro ao jornalista, anuncia-se a entrevista do jornalista ao entrevistado.
Dir-se-á que é um pequeno erro, e talvez seja, mas é um pequeno erro que demonstra sem margem para dúvidas que para aquelas cabeças o importante é o jornalista, não o entrevistado e muito menos o conteúdo da entrevista.
Esta é uma pecha que já chegou aos profs. Universitários: veja-se este texto da Profª Fernanda Palma publicado no Correio da Manhã , onde se diz que “(...)O título que escolhi não é original: inspira-se no nome de uma colectânea de entrevistas de Marie de Solemne a autores importantes do pensamento filosófico e religioso, como Paul Ricoeur (...)”.
Dir-se-ia que a dita Marie de Solemne deu uma entrevista a Paul Ricoeur... mas terá sido exactamente o contrário.
É pena que quem tem a obrigação de se exprimir com rigor o faça assim.
Por este andar, ainda "há-dem" de escrever pior até isto bater no fundo.

O Papa e as camisas


A gritaria mediática à volta do Papa e dos preservativos já começa a meter nojo.
Nem conheço bem a opinião da igreja católica sobre o tema, embora tenha a ideia de que é uma orientação bastante conservadora.
Admito mesmo que seja perigosa, pois o não uso do preservativo pode levar a níveis perigosíssimos a difusão da sida e de doenças quejandas.
Mas circunscrever a mensagem papal às famigeradas camisinhas, parece-me uma monumental operação de desinformação, um enorme embuste.
Chateia-me sempre ver uma data de palonços a competir para ver qual deles é o politicamente mais correcto.
Ai, mas c'órror, o homezinho não pode com camisas !”
E isso é razão para ignorarem o resto da mensagem papal ?
Chiça, nem sequer sou católico por aí além, mas está-me a irritar este bafo que deitam estes e estas meninas politicamente correctos; e sabem a que é que cheira esse bafo, meninos ?
Paradoxalmente, cheira a sacristia.

sábado, março 21, 2009

Todas as tachas incluídas



Ao pé de VNMilfontes há um restaurante simpático que serve razoavelmente e cuja única particularidade é trazer nos cardápios a frase “Todas as tachas incluídas”.
Tal expressão impressiona-me pois até me parece que acabei de ser picado por uma tacha que quase me atravessa o dedo no momento da manipulação do menu.
Não deixa de ser interessante ponderar que o proprietário entende a fiscalidade como autêntico atentado à integridade física, daí a taxa ter-se transmutado em “tacha”.
Tem a sua poesia.

Ulan Bantor


Estou esmagado pela responsabilidade e pela globalização.
Acabo de verificar que passou por este blog um visitante de... Ulan Bator, Mongólia.
Nem nos meus sonhos mais delirantes eu iria imaginar que seria lido por um ilustre mongol, quem sabe, porventura um descendente daquele rapaz simpático que dava pelo nome de Gengis Khan...

Profissão honesta

Ser pianista num bar de alterne.

quarta-feira, março 18, 2009

Funes e o poder

O meu amigo Funes el Memorioso é afinal membro de uma família ilustre que dá cartas em várias partes do mundo, como a Saphou bem descreve neste post. Consta que o Funes luso se prepara para abraçar uma carreira política entre nós. Tentando corresponder ao que se espera dos amigos, aqui deixo dois slogans para a sua campanha que, espero, esteja próxima:



segunda-feira, março 16, 2009

Pai

Se há coisa que me deixa com pele de galinha é a frase “já não tenho pai” ou “já não tenho mãe”.
Eu continuo a ter pai e mãe, embora ambos já cá não estejam.
Este post da Saphou comoveu-me e trouxe-me lembranças.
A morte do meu pai e mais tarde a morte da minha mãe foram para mim momentos de hecatombe, de caos tal que é difícil explicar.
O senhor meu pai faleceu em Janeiro e eu mergulhei numa onda de horror e angústia da qual só acordei 6 meses depois, em Julho, a fazer longas passeatas de bicicleta à beira mar.
Continua a acompanhar-me quase diariamente – e não estou a exagerar rigorosamente nada.
Habituei-me a pensar nele só com o imenso amor que lhe tenho e já não com a angústia e a sensação de perda.
É curioso, hoje já não tenho grande sensação de perda, porque frequentemente me sinto acompanhado por ele, a sua voz ressoa na minha cabeça e quase tenho a sensação de que se olhar para o lado vou ver o seu semblante calmo e carinhoso.
Eu não posso dizer que “já não tenho pai” - sempre o tive e sempre o terei.

Selecções musicais

Turn, Turn,Turn – The Byrds
California dreamin - The Mamas and Papas
If You Leave Me Now (1976) - Chicago


Nota
:
Volta e meia vou pondo aqui umas quantas canções que fazem parte do imaginário da minha geração, ou pelo menos de parte dela, sem tentar ser exaustivo, apenas para recreio da rapaziada que por aqui passa.
O critério é basicamente o da qualidade da gravação, embora com algumas concessões em virtude da respeitável idade de algumas delas.

domingo, março 15, 2009

Campanhas brancas

Há por aí alguns rapazes de serviço cuja função é difundir opiniões e notícias favoráveis ao querido líder.
Uma das explicações que eles dão para o facto de haver uma relevante antipatia de muitos sectores relativamente ao dito cujo querido líder é a seguinte: o querido líder, como verdadeiro homem de Estado, resolveu enfrentar os poderes cinzentos e subterrâneos da democracia, afrontando muita gente, que agora o odeia.
Enganam-se.
Não são propriamente as medidas do querido líder que o tornam alvo da antipatia.
É a forma como o fez, fatiando a sociedade em “corporações” a açulando a populaça contra as diversas classes profissionais, uma a uma: médicos, juízes, enfermeiros, funcionários públicos, etc., foram sendo, à vez, hostilizados e submetidos a barragens de contra-propaganda e ainda por cima sem direito a contraditório, pois os jornalistas em geral deslumbraram-se com o querido líder e com o seu vasto “programa de reformas”, que hoje, 4 anos depois, pouca gente tem dúvidas de que vale praticamente zero).
Nenhuma – nenhuma ! - reforma foi feita sem o recurso à diabolização dos profissionais que se queriam “reformar”, e isto cria um lastro de antipatia maior do que aquele que o querido líder consegue gerir.
Bem podem fazer campanhas brancas – já não recuperam a antipatia profunda e entranhada que milhões de pessoas contraíram relativamente ao querido líder – e aos queridos bonecos que o seguem cega e acefalamente.

sábado, março 14, 2009

Ao serviço de Sua Majestade

Os britânicos têm muita "proa" e alguns pergaminhos.
Mas têm cá cada esqueleto no armário...
Ora vejam esta: Reino Unido: inocente passou 27 anos na prisão.

sexta-feira, março 13, 2009

Manuel Alegre e Passos Coelho

Um post do blog O cachimbo de Magritte, que está com muita piada:

Dupond e Dupont

Manuel Alegre está para o PS como Passos Coelho para o PSD.
A diferença é que Alegre escreve livros que ninguém lê e Passos lê livros que ninguém escreve.

Publicada por Pedro Picoito

:):):)

quinta-feira, março 12, 2009

Não voto !

Hoje houve (aliás está a decorrer) uma eleição lá na minha chafarica.
Como sempre, desde há uns 10 anos, não votei, por me parecer irrelevante perder tempo com isso.
Perguntaram-me com alguma consternação a razão da minha atitude.
Respondi apenas “não voto”.
Mas porquê, perguntavam eles ?
Não explico, já nem isso, só tenho a dizer que
Não voto para as legislativas;
Não voto para as europeias;
Não voto para as autarquias;
Não voto para a profissão;
Não voto para o condomínio;
Não voto para a comissão de festas lá da parvónia;
Não voto para os blogs;
Não voto para sondagens;
Não voto para nada;
Não voto, não voto, não voto.
Tenho dito.
Quando a percentagem dos não votantes atingir níveis alarmantes - e já não anda longe - mesmo quem não quer, acabará por perceber.
Habituem-se, cambada de vígaros !
Actualização: ah, e ainda mais esta - recuso-me terminantemente a responder a inquéritos telefónicos.

quarta-feira, março 11, 2009

Custo da silent guitar

Para o meu visitante que anda à procura dos preços da silent guitar:
Em Portugal custa à volta de 450 €, uns 90 contos em moeda antiga.
Em Espanha, há 2 anos, o preço rondava os 500 €, provavelmente deve ter baixado, mas não tenho a certeza.
Vi uma à venda na Lismúsica, em Lisboa, não me lembro do preço, mas não deve andar longe dos valores indicados.
Desejo-lhe uma boa compra - e não se esqueça que a opção por cordas de nylon ou cordas de aço é crucial.
Sugiro que de caminho compre umas quantas pestanas (cavaletes) de osso, para "quitar" a viola nos moldes aludidos aqui.

Mulheres são mais resistentes à corrupção

Então não é que tudo indica que as mulheres são mais resistentes à corrupção do que os homens ?
Descobri isso aqui.
A minha surpresa foi a de que aceitei a coisa muito bem – nem fiquei surpreendido.
Depois, analisei-me: porque raio de carga de água é que não fiquei surpreendido ?
A resposta a tal indagação is blowing in the wind, há-de aparecer por aqui mas por enquanto anda a assobiar alhures.

segunda-feira, março 09, 2009

O jogo do anjo


Já escrevi aqui sobre Carlos Ruiz Zafón e a sua obra “A sombra do vento”.
Os seus cenários radicam preferencialmente em Barcelona, onde o mistério e a magia se podem fundir.
Comecei há pouco a ler “O jogo do anjo”, também centrado em Barcelona, onde um jovem escritor ensaia a vida.
Tão bom como o anterior: Zafón escreve muito bem, a sua escrita é densa e envolvente, o pormenor é tratado com toda a deferência.
Recomendo vivamente a sua leitura, para quem goste do género.

Qual o jeito certo de colocar o cavalete na guitarra ?

Vi esta pergunta feita por um leitor e, como sei a resposta, passo à matéria:
Por tentativa e erro, meu caro leitor.
Antes do mais, note que normalmente os cavaletes, mesmo de boas violas, são feitos em plástico.
Há no mercado cavaletes em osso bastante bons e baratos.
Compre 4 ou 5.
Verifique a altura do cavalete de origem: imaginemos que tem 5 milímetros.
Pegue num dos cavaletes de osso e desbaste-o até ele apresentar uma altura de 2 ou 3 mm.
O desbaste pode ser feito através de uma lima ou de uma lixa grossa e – claro ! - tem que ser feito com cuidado; convém usar um torno que fixe bem o cavalete, mas não é essencial.
Experimente o novo cavalete: se o som satisfizer, óptimo, nada mais há a fazer.
Se a viola der som de “lata”, o cavalete está demasiado baixo.
Pegue no segundo cavalete de osso antes comprado e desbaste-o até ele ficar com a altura de 3,5 mm ou de 4 mm.
A ideia é baixar o cavalete ao máximo possível antes de o som da viola ser prejudicado: conseguirá que as cordas fiquem muito mais perto da escala, proporcionando novas oportunidades de evolução no manejo da viola.
Em princípio, quanto mais alto for o cavalete, melhor será o som e mais difícil será a acção do guitarrista, uma vez que as cordas estão longe da escala; o que se pretende é facilitar a acção do guitarrista sem prejudicar a qualidade do som.
Cada viola tem a sua altura óptima, a encontrar, como digo acima, por tentativa e erro.
Aditamento: tenha-se em atenção que os cavaletes variam muito consoante as cordas da viola são de nylon ou de aço.
Muitas vezes as violas folk (aço) trazem um veio de metal dentro do braço, ajustável através de uma chave sextavada, que permite ao utilizador sem grandes complicações subir e descer a escala.

quinta-feira, março 05, 2009

Dicas para violas – II – violas electro-acústicas

Costumo designar por viola electro-acústica aquela viola que tem caixa e pode ser ouvida só por si, mas tem também uma ligação para um “jack” que a leva a um amplificador.
O sistema de electrificação que conheço é o “Fishman”, que consiste num kit adaptável a qualquer viola acústica de caixa, que lhe proporciona uma entrada de “jack”.
Há muitas electro-acústicas de origem – há uns anos o padrão máximo de qualidade dessas violas eram os modelos da “Ovation”- mas hoje há os mais variados modelos das mais variadas marcas, todos com qualidade.
Noto, porém, um padrão de alguma sobranceria dos fabricantes relativamente às electro-acústicas de cordas de nylon: quase nunca têm electro-acústicas topo da gama, reservando esse lugar às violas só acústicas.
A solução, para se ter uma electro-acústica topo da gama, é comprar a acústica super top e depois mandar colocar-lhe um “Fishman” por quem saiba fazê-lo, juntando-se o melhor dos dois mundos (há hoje amplificadores de extrema fiabilidade, com efeitos incorporados – reverb, chorus, delay – que conseguem expandir o som com níveis de qualidade espantosos, emulando o som de estúdio de uma forma surpreendente).
Quanto às electro-acústicas de cordas de aço, há no mercado uma série de boas violas com preços razoáveis – Gibsons, Fenders, Epiphones, etc.
Nestas, como noutras violas, é importante que o espaço entre as cordas e a escala seja mínimo.
Ora acontece que normalmente o cavalete (ou pestana de cima) de origem é muito alto, o que eleva a altura das cordas; em quase todas as minhas violas tenho aplicado um cavalete/pestana de osso, desbastado por mim, mais baixo que o original, com resultados razoáveis (há no mercado cavaletes/pestanas em osso por preços acessíveis, é possível sacrificar um ou dois antes de atingir a altura ideal).

Dicas para violas



Tenho verificado que muitos dos meus visitantes vêem aqui para saber de violas.
Aqui vão umas dicas para quem quer comprar uma.

Antes do mais, se é principiante, comece com uma viola de cordas de nylon, que são menos agressivas e fazem calo na mesma, mas demoram mais tempo a fazê-lo.

Em Portugal hoje em dia compra-se uma viola razoável para principiante por uma quantia que ronda os 60 a 80 €.
Por 200 ou 300 € já se compra uma boa viola de marca – recomendo a Alhambra, que nos seus modelos de média gama apresenta alguns bastante bons.
A viola de cordas de nylon é também aconselhável para dedilhados e – claro ! - para peças de viola clássica.

Se pretende dedicar-se mais a folk, rock e em geral música moderna, então a boa opção é uma viola de cordas de aço.

Quer as cordas de nylon, quer as cordas de aço têm várias graduações de espessura - quanto mais grossas são as cordas maior é o calibre das ditas – podem ser heavy, strong, normal, light, super-light e extra-light.
Normalmente para cada viola há um calibre de cordas mais adequado – na dúvida, escolha cordas de tensão média ou baixa (light ou extra-light).

Atenção: em violas normais não convém colocar cordas muito tensas ou de calibre muito forte, porque podem levar o braço da viola a empenar (muitos braços não estão construídos para suportarem tensões elevadas, daí os cuidados a ter) – é escusado dizer que se uma viola empenou o braço, o melhor é dá-la a uma criança da família para ela rebentar porque deixou de ter qualquer valia como instrumento musical.

Hei-de voltar ao tema para tratar de violas electro-acústicas e eléctricas tout court, tipo “bacalhau”.

La Palisse


Após a morte do Senhor de La Palisse, houve quem assegurasse que o mesmo, pouco antes de morrer, estava vivo.

Li algures esta boca na blogosfera.
Acho que está impec.

Clique na imagem para ler os deliciosos versos que lá constam.

quarta-feira, março 04, 2009

Finalmente


Finalmente uns saldos com preços decentes !
Se os comerciantes das outras áreas tivessem o dinamismo, a vontade de vencer e o
profissionalismo do dono desta loja, há muito que a crise estaria totalmente debelada
.

terça-feira, março 03, 2009

A bloguização da comunicação social

Um texto de Pacheco Pereira que me parece muito lúcido - aqui.

Partido ou clube de fãns ?


(...)Ao fim de quatro anos de maioria absoluta, o PS deixou de ser um partido para se transformar num conjunto de figurantes que, de tempos a tempos, serve para ornamentar a actuação do Governo e os grandiosos anúncios lançados pelo primeiro-ministro. E, como se compreende, não compete aos figurantes suscitar dúvidas, apresentar críticas ou levantar questões. Os figurantes, em certa medida, fazem parte do cenário: estão ali para bater palmas, para agitar bandeiras e para manifestar ruidosamente a sua imensa devoção ao chefe.(...)
Constança Cunha e Sá, no Correio da Manhã

Foto CM.

Copianço

O meu amigo Coutinho Ribeiro escreveu aqui uma divertida história sobre um dia que copiou num exame e foi apanhado.
Lembrei-me da minha nunca suficientemente digerida história com a bela Cecília, minha colega do 7º ano, nos finais dos anos sessenta.
Cá vai:
A Cecília era gira, o suficiente para me fazer magicar formas de aproximação mais ou menos interesseiras; acho que estava numa alínea diferente da minha, mas tínhamos algumas cadeiras comuns e o Latim era uma delas.
Constava que ela era uma barra – e eu era um nabo de primeiríssima categoria, fazia traduções e retroversões inenarráveis de textos do Virgílio e do Ovídio (cheguei a fazer uma tradução da Guerra de Tróia como sendo um... casamento – mas nem vou falar desses despautérios, senão nunca mais saímos daqui).
Chegou o dia do exame e lá fui.
Qual não é meu espanto e agrado quando descubro que a boa da Cecília tinha calhado mesmo ao meu lado – aproveitando e abusando, copiei que nem um leão pelo ponto da moça, que foi impec e me deixou copiar à vontade; a certa altura, com um sorriso aberto e apontando para os meus pés sussurou-me em jeito de pergunta: “isso é contestação ?”
Intrigado, olhei para os meus pés... e descubro que tenho uma peúga azul e outra roxa a atirar para o rosa choque !
Claro que eu é que fiquei chocado.
Caiu-me a alma aos pés – tinha-me levantado muito cedo e na semi-obscuridade do meu quarto (não abria a luz para não incomodar os meus dois irmãos), enfiei uma peúga de cada nação e nesses tristes preparos venho a ser descoberto pela bela Cecília !
Nunca mais pude olhar para ela, não sei se por vergonha, se por ela me lembrar sempre uma peúga.
Bom, mas a história acaba bem: tive 16 na cadeira e dispensei da oral.
Por causa desta história semi-macabra, nunca gostei do “Cecilia” do Paul Simon, saído mais ou menos por essa época, salvo erro no álbum “Bridge Over Troubled Water”.
Quanto à Cecília propriamente dita, nunca mais a vi.

domingo, março 01, 2009

Autismo político

Certos rituais colectivos são em si mesmos portadores de notícias, muitas vezes não necessariamente aquelas que os seus protagonistas pretenderiam.
Estou-me a lembrar, por exemplo, de que pouco antes do 25 de Abril os principais chefes militares prestaram a Marcello Caetano uma espécie de juramento de fidelidade, pretendendo dar com isso a ideia de que o regime estava mais sólido do que nunca (generais e almirantes que mais tarde se viram apelidados de “brigada do reumático” pelos mais jovens militares que fizeram o 25 de Abril uns meses depois).
A cerimónia, que pretendia ser uma manifestação de vitalidade e fidelidade das forças armadas acabou por ser historicamente (hoje ninguém o contesta, penso eu) o prenúncio de que a situação então já existente era a oposta – nesse mesmo período já o MFA ultimava os preparativos do golpe que derrubou a ditadura, e esta já tinha os dias contados.
A cerimónia de unanimismo e aclamação do querido líder proporcionada pelo congresso do PS deste fim de semana revela que quase não existiu debate, o sistema de escolha dos delegados ao congresso era indiferente – porque o essencial estava escolhido e assumido antes do mesmo congresso – as ideias força foram de uma pobreza franciscana e praticamente limitaram-se à retórica de ser indispensável uma nova maioria absoluta do PS para proporcionar a esse estadista extraordinário que é Sócrates a oportunidade de liderar o país nesta época de crise que vivemos.
É pouco, é mesmo muito pouco.
Parece que os corifeus do PS já concluíram que o debate de ideias é supérfluo, o que interessa é convencer o eleitorado a votar neles.
Isso é seguramente um mau sinal para o PS: significa que os seus dirigentes já estão completamente fora da realidade e parecem convictos de que o eleitorado se convence com duas cantigas – a cantiga da crise e a cantiga da maioria absoluta e da governabilidade.
O autismo induzido pelo prolongado exercício do poder fá-los dar como adquirido aquilo que ainda está em disputa, e isso é um primeiro e poderoso passo para virem a ter uma enorme e desagradável surpresa nas noites das eleições que aí vêm.
A ausência de alternativas apresentada como uma prova da inevitabilidade do governo do PS é uma falácia: não só a líder do PSD Manuela Ferreira Leite é um “osso” muito mais duro de roer do que a pintam os “spin doctors” socialistas, como a emergência de um líder ganhador na área do centro direita (porventura até com o apoio da actual dirigente) é uma hipótese que parece estar a ser descartada com demasiada facilidade.

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