Blog que trata dos livros, da leitura, da música e da reflexão política e social.


quarta-feira, março 07, 2007

La poesia es una arma

Paco Ibañez

terça-feira, março 06, 2007

Gabriel Garcia Marquez

Faz hoje 80 anos.
O seu livro mais extraordinário, Cem Anos de Solidão (Cien Años de Soledad) será recordado como uma das mais belas obras representativas do Realismo Mágico Latino-Americano, que marcou várias gerações de leitores.

Gabriel Garcia Marquez é colombiano e Prémio Nobel da Literatura.

Aqui ficam algumas obras dele, a reboque das releituras de Arnaldo Nogueira.

Tenho para mim que Gabo é um dos homens mais extrordinários do seu tempo.

Não foi por acaso que me inspirei no seu nome, quando escolhi uma identidade virtual para este blog e para a intervenção em alguns outros.

Saravá, querido Amigo !
(E obrigado por tudo o que me ensinaste e por tudo o que me deste a sentir).

segunda-feira, março 05, 2007

Juventude “inconciente”


Hoje tropecei numa canção dos Eagles e lembrei-me da minha juventude inconsciente.

Tinha 28/29 anos, era um jovem profissional cheio de confiança em si próprio, saído de um “namoro histórico” (daqueles que leva uns anos largos e depois não dá em nada por absoluta incompatibilidade de feitios...) e... estava cheio de pena de mim próprio !
(Ter confiança em mim próprio e ao mesmo tempo ter pena de mim próprio não era uma contradição para mim, na época).
Então, vingava-me: solteiro e bom rapaz, livre e alodial, fruto apetecível para meninas casadoiras e não só, atravessei uma época mitológica em que namorei todas as meninas “namoráveis” de determinada região Sul (se me escapou alguma, aqui e agora peço desculpa e prometo que na próxima incarnação não escapa).
A minha vida era um virote, andava sempre em grandes correrias para alcançar as namoradas a tempo e horas.
Estava na moda uma canção dos Eagles, “Take it to the limit”.
Imaginem então que a minha loucura inconsciente juvenil me levava a cruzar as variadíssimas estradas do sul (na altura não havia auto-estradas) em alta velocidade, num bom carro, a ouvir aos berros o “Take it to the limit” e a levar efectivamente ao limite as loucuras na estrada.
Não sei se sabem, mas aquelas estradas eram mortíferas – todos os dias havia acidentes horríveis com mortos e feridos por todo o lado.
No meio de tal confusão dantesca, e apesar de ser um louco, sobrevivi.
Não é surpreendente ?

Cá vai a letra da canção

Take it to the limit
(Eagles)

All alone at the end of the of the evening
And the bright lights have faded to blue
I was thinking ’bout a woman who might have
Loved me and I never knew
You know I’ve always been a dreamer
(spent my life running ’round)
And it’s so hard to change
(can’t seem to settle down)
But the dreams I’ve seen lately
Keep on turning out and burning out
And turning out the same

So put me on a highway
And show me a sign
And take it to the limit one more time

You can spend all your time making money
You can spend all your love making time
If it all fell to pieces tomorrow
Would you still be mine?

And when you’re looking for your freedom
(nobody seems to care)
And you can’t find the door
(can’t find it anywhere)
When there’s nothing to believe in
Still you’re coming back, you’re running back
You’re coming back for more

So put me on a highway
And show me a sign
And take it to the limit one more time

Take it to the limit
Take it to the limit
Take it to the limit one more time

Contos Estelares - IX

Capítulo III


Rumo a Andrómeda


A princípio quase não se deu por nada, mas a nave Poseidon tinha acabado de partir para a grande viagem.
Como viajava próxima da estação espacial, ambas à velocidade da luz, a desaceleração da Poseidon só longos momentos depois de ser accionada foi realmente percepcionada – muito lentamente, a nave afastava-se da estação, ficando para trás.
A Poseidon tinha que se afastar bastante da estação antes de accionar os motores Erkhart, por razões de segurança; a estratégia era deixar-se ficar para trás algumas dezenas de milhares de quilómetros e assim se foi fazendo.
Dois dias-padrão depois a estação espacial era já um pontinho luminoso confundindo-se com as estrelas à distância.
“Atenção, estação, daqui Poseidon requisitando relatório”, ouviu-se a voz de Neves na sala de comando da estação.
“Estação espacial em linha e falando” respondeu Marta, “tudo normal e dentro do previsto – a vossa nave já só pode ser vista através de computação de imagem, aqui na estação prossegue a rotina”.
“Como previsto, vamos entrar em velocidade hiper-luminosa – assim que entrarmos em hiper-luz só poderemos comunicar com as limitações do interface Erkhart”, prosseguiu Neves.
“Todos preparados aqui na estação”.
Neves manobrou a Poseidon de forma a que esta ficasse com o extremo da proa voltado para Andrómeda até estabilizar a nave nessa direcção.
“Nave estabilizada, atenção à tripulação, parar toda a actividade, deitar nas camas dos camarotes dentro de meia hora ou em alternativa nos nichos de aceleração da sala de comando”, comandou Neves pelo intercomunicador.
Todos os astronautas preferiram assistir à aceleração na sala de comando.
“Atenção, vai começar a hiper-velocidade”.
Sentiu-se uma poderosa força que colava literalmente os astronautas aos nichos, ao mesmo tempo que um ruído quase em ultra-som se fazia sentir mais e mais, aumentando o volume à medida que a velocidade aumentava.
A certo momento estava uma barulheira infernal, com os astronautas esborrachados contra os nichos.
Subitamente ouviu-se como que um tiro de canhão e voltou o silencio, desaparecendo gradualmente a sensação de velocidade.
Mas os visores não mentiam – indicavam já o algarismo 20, o que significava que estavam a 20 vezes a velocidade da luz – 300.000 km por segundo vezes 20 – 6 milhões de Km por segundo !
“Todos se sentem bem ?”, indagou Cleópatra, que tinha junto às suas outras funções a de encarregada do departamento da saúde.
Todos se sentiam bem, tirando algumas palpitações já previsíveis originadas pelo barulho e pela sensação de aceleração que tinham experimentado.
Quando estabilizou a sua hiper-velocidade a nave já tinha deixado para trás há muito a estação, que ultrapassara pouco depois de ter iniciado a aceleração.
Os astronautas entreolharam-se com alguma timidez – a proximidade física era coisa a que estavam pouco habituados nos últimos anos.
Nina dissipou a tensão com uma simples pergunta a Cem “sabes cozinhar outras coisas além da feijoada ? se quiseres fazer um petisco para a confraria creio que seria bem-vindo”.
“Claro”, respondeu Cem, "dêem-me meia horinha e já vos apresento coisa boa” e saiu para a cozinha.
Meia hora depois soou o ding-dong do chamamento ao refeitório, de onde vinha um cheirinho a petisco iniludível.
“Resolvi apresentar-vos um petisco especial, um caril de soja vegetariano a que pode ser acrescentado condimentação diversa”.
Todos comeram, com uma canção dos Bee-Gees em fundo ("I started a Joke"), preparando-se para a solidão que vinha a seguir, pois estava programado que naquela fase cada um iria para o seu camarote e tentaria dormir tudo quanto pudesse.
(continua)

Contos estelares - VIII

Estação espacial
Preparando a grande viagem

Os cinco astronautas concluíram rapidamente os cálculos necessários: era preciso que as quatro naves se aproximassem o suficiente para se poderem mudar pessoas das naves, ficando três delas firmemente ligadas entre si, constituindo uma estação espacial.
A Poseidon, onde viajavam Augusta, Marta e João, seria a única nave a não estar ligada, pois seria nela que os astronautas se deslocariam para Andrómeda já que era a única que dispunha de propulsão Erkhart.
A estação espacial ficaria a vogar apenas à velocidade da luz, apontada a Andrómeda.
As naves Histórica (de Funes), Mariposa (Cleópatra) e Atlântida (Cem) foram aproximadas a menos de 50 metros e começou o delicado trabalho de construção das condutas através das quais iriam comunicar fisicamente; foram feitas várias mangas, de uma substância apelidada de flexiaço, que ligava as escotilhas mais largas de cada nave.
Felizmente todas eram relativamente contemporâneas, todas apresentando ganchos e cavilhas de atracagem normalizados, facilitando a tarefa da sua junção física.
Foi necessário acordar João e Marta para ajudarem nos trabalhos de atracagem das fuselagens; ponderou-se que eles teriam de ser acordados de qualquer forma, pois seriam eles a ficar aos comandos da estação.
Implicitamente foi assumido que quem se deslocaria a Andrómeda na Poseidon seriam Augusta, Neves, Cleópatra, Funes e Cem.
Algumas questões ficaram por resolver deliberadamente: por exemplo, sabia-se que a Poseidon iria demorar 5 anos a chegar a Andrómeda viajando a 20 vezes a velocidade da luz, pelo que punha a questão: deviam ou não os astronautas ou alguns deles entrar em pseudo-sono durante esse período ?
Funes e Cem declararam logo que não pretendiam dormir.
As suas companheiras de viagem deixaram a questão para deliberação posterior.
A Poseidon tinha acomodações e espaço mais do que suficiente para os cinco, além de amplos recintos comunitários – auditório, ginásio, biblioteca, refeitório com uma grande cozinha, e até um pequeno lago artificial com uma cascata onde era possível simular-se um banho de rio.
Os seus camarotes eram luxuosos (ou não fosse a nave preparada pelas super-poderosas Matriarcas da Terra), todos dispunham de jacuzzi e cama com hidromassagem.
Fiel às suas raízes espartanas e gostando de um colchão especialmente duro, Cem aumentou a tensão interna do seu colchão, tornando-o mais rígido.
As astronautas não mexeram nos comandos centrais dos seus camarotes – eles estavam todos regulados para todo o luxo feminino que a tecnologia podia proporcionar e não valia a pena fazer alterações.
Funes limitou-se a reivindicar o uso sem limites dos ficheiros da biblioteca para as suas pesquisas e registos históricos, no que todos concordaram.
Cada um dos cinco candidatos à grande viagem se mostrava gentil e paciente para com todos os outros, pois seriam co-habitantes de um espaço reduzido durante 10 anos, dependendo a sua sobrevivência de todos.
Por consenso foram distribuídas as tarefas de cada um:
Funes ficou encarregado da biblioteca e da central dos arquivos “melindrosos” (só mais tarde se falará deles).
Augusta Nina ficou encarregada do auditório e da manutenção geral da nave.
Cleópatra ficou com todas as tarefas inerentes ao Livro de Bordo e ao Manual de Bordo, bem como encarregada da estratégia geral da nave.
Neves assumiu a responsabilidade de velar pela correcção de rumo da nave e de todas as outras acções de navegadora, incluindo todos os cuidados especiais com combustível e perecíveis.
Cem ficou encarregado da cozinha e refeitório, encargo que aceitou com a única condição de não haver “fast food” às refeições, ficando também responsável pelo computador central de bordo e pelo computador redundante.
Treinaram intensivamente as suas respectivas áreas.
Em 3 meses a estação espacial estava acabada e a viajar à velocidade da luz e todos os preparativos da nave Poseidon estavam feitos e completados.
Os motores Erkhart foram revistos, lubrificados e testados.
Ia começar a grande viagem pela hiper-luz.
(continua)

domingo, março 04, 2007

Contos estelares - VII

"A máquina enlouqueceu", exclamaram mais uma vez as três, incrédulas.
No visor do computador apareceu outra mensagem:

“Como mulheres (...) que são, as senhoras julgam que o computador enlouqueceu, naturalmente.

Fui programado para aceitar contingências dessa natureza.

Há uma alternativa à nomeação de um homem-chefe: acordarem os dois adormecidos qualificados (Funes e Cem) e aceitarem-nos como vossos pares em todos os debates e discussões que se vão seguir”.

“Bom, continuo a pensar que a máquina está com algum problema, mas esta alternativa já me parece mais razoável”, disse Cleópatra.

As outras duas ex-Belas Adormecidas concordaram.

Resolveram pois acordar os dois adormecidos, o que fizeram acto contínuo.

“Que fome !”, exclamou Cem espreguiçando-se “bolas, foram-me acordar quando eu estava a sonhar com iguarias gastronómicas inexprimíveis”.

“Também tenho fome” declarou sucintamente Funes.

“Bom, mas é necessário discutirmos”, obtemperou Neves.

“Desculpem lá, minhas Senhoras, mas eu sou incapaz de discutir o que quer que seja, de barriga vazia e com esta fome ! Posso oferecer-vos uma feijoada com todos, feita à transmontana, que poderei confeccionar aqui e enviar-vos pelo transpositor de matéria”.

“Também tenho fome” repetiu igualmente sucintamente Funes.

“Funes, V. está a ficar um bocadito monocórdico”, chasqueou Cleópatra, “mas o melhor é não perdermos mais tempo e conciliar tudo – Cem, em quanto tempo consegue fazer a feijoada ?”

“Em uma hora posso ter tudo pronto”.

Os outros concordaram em esperar pela dita.

Uma hora depois começaram as chegar as feijoadinhas quentinhas às várias naves, acompanhadas por um arroz branco malandrinho e torresmos transmontanos para servir à parte; em anexo, chegaram também umas garrafinhas de vinho tinto “Dão Meia Encosta”, para “acompanhar à missa” e um piri-piri especial made in Cem.

Todos comeram e beberam excelentemente, tendo mesmo Augusta declarado que há muito não comia uma feijoada tão bem apurada, e – pasme-se ! – com a concordância de todas as outras mulheres.

“Cem, como é que V. faz isto ?”, perguntou Funes entusiasmado.

“Oh, oh, meu amigo, são alguns anos de escravidão na cozinha de algumas mulheres que conheci na velha Terra – cheguei à conclusão de que a única forma de elas me darem alguma liberdade era alcançar-lhes as barriguinhas, desenvolvi esta técnica de feijoada e nunca mais tive problemas – se as estimar bem, com bons cozinhados, elas dão-me uma margem de liberdade de movimentos que nunca conseguiria ter como simples técnico qualificado, mesmo da classe A”.

“Já todos comeram ?”, indagou Cem.

Já todos tinham comido e bebido.

Os cinco iniciaram então uma reunião em videoconferência, debatendo as hipóteses em cima da mesa.

Cem declarou pouco depois que achava a 1ª hipótese a mais susceptível de sucesso, desde que combinada, na medida do possível com a proposta de Augusta.

Funes declarou que concordava, desde que as naves interligadas tivessem sistemas de privacidade que inviabilizassem qualquer intromissão na vida privada de cada um.

Neves e Augusta concordaram com as sugestões e Cleópatra sempre estivera de acordo com a solução gizada.

Havia muito a fazer.

(continua)

sábado, março 03, 2007

John Mayall



Aqui vão duas canções excepcionais do "Pai dos Blues" british.




Room to Move e Double Crossing Time

Nina bloqueada

Então Ni, já tens o problema resolvido ?
Se bem compreendi, o Blogger.com bloqueou-te o blog alegando que ele tinha todo o ar de ser "spam", não é verdade ?
Não compreendo de todo como é que um blog como o MomentUS pode ser confundido com um sítio de "spam".
Espero que a coisa melhore.
Podes sempre vir aqui e deixar os recados que entenderes.
Um abraço e boa sorte,
Cem

Contos Estelares - VI

Cleópatra sentou-se no sarcófago criogénico, que estava de tampa aberta, e o seu olhar dirigiu-se logo para o calendário, apercebendo-se de que tinha estado em hibernação muito pouco tempo.
A seu lado João, Marta e Augusta dormiam o sono dos justos.

Sabia que nas respectivas naves Funes e Cem dormiam também.
Sabia também que provavelmente teria sido Neves a acordá-la, a não ser que algum acidente tivesse accionado o despertar automático.
Pouco depois Neves juntou-se-lhe em videoconferência, ambas já nas respectivas salas de comando das suas naves.

Neves explicou a Cleópatra o que tinha acontecido e a razão porque a tinha acordado.

Explicou que tinha configurado várias hipóteses para a solução do problema que enfrentavam:

1. Usar a nave em que estavam, Poseidon, que tinha propulsão Erkhart e que podia em poucos anos fazer a viagem a Andrómeda e voltar (a propulsão Erkhart permitia viagens a 20 vezes a velocidade da luz; em cerca de 10 anos-padrão a Poseidon conseguiria deslocar-se 200 anos-luz, ou seja, podia fazer uma viagem de ida e volta a Andrómeda).

2. Deixar a expedição prosseguir apenas à velocidade da luz, tentando descobrir um sistema habitável antes de Andrómeda.

3. Obrigar os computadores a fazerem um “brainstorming” por forma a apurar quais os sistemas estelares próximos mais prometedores em termos de habitabilidade (opção perigosa pois era frequente nestas tentativas um ou dois computadores não aguentarem a carga de terabytes envolvida e rebentarem os discos e as memórias centrais.

4. Combinar as partes compatíveis das hipóteses 1, 2 e 3.

Neves deixou bem claro que a sua preferência tendia para a hipótese 3 – computer brainstorming.

Cleópatra disse-lhe que precisaria de pelo menos 24 horas de estudo e reflexão para se sentir com o à vontade de formular uma opinião.

Meteu-se na sua cabine manejando o computador portátil, fazendo cálculos e mais cálculos, tudo a funcionar sobre o sistema operativo Windows.

Passado umas horas voltou à sala de comando e requisitou um novo portátil equipado com outro sistema operativo, o Linux; depois de o receber, trabalhou mais umas horas, dizendo volta e meia uma imprecação em surdina.

Finalmente, cansadíssima e insone, voltou a ligar a videoconferência, contactando Neves.

“Minha amiga, estamos com um problema”, disse, “creio que a tua proposta é inadequada, segundo os meus cálculos a hipótese 1 é a mais prometedora, oferecendo 80% de margem de sucesso, enquanto nenhuma das outras ultrapassa os 60% de probabilidades”.

“Temos de acordar o terceiro elemento”, constatou Neves, “mas quem ?”

“Simples”, respondeu Cleópatra, “isto é um problema sério, tem que ser resolvido pelos mais capazes e os mais capazes somos nós, as mulheres, como concordarás – a nossa melhor mulher adormecida, pela sua sagacidade e pela sua experiência é Augusta Nina”.

“Seja”, anuiu Neves, “mas por favor, depressa, porque estamos a chegar a um eixo axial importante da viagem e a eventual mudança de eixo tem que ser decidida a curto prazo”.

Accionaram o despertar de Augusta.

Passado uma hora já Augusta estava desperta e inteirada do problema que enfrentavam.

“Cabe-me então a mim desempatar”, constatou Nina, olhando preocupada para o visor de videoconferência – “oiçam lá, e se eu tiver uma quinta opinião não coincidente com nenhuma das vossas ?”.

“É que tenho mesmo, caras amigas, a minha opinião é a de que perante todo este imbróglio a nossa melhor hipótese de sucesso é a ligação física das quatro naves e a construção de uma estação espacial que apontaremos ao sistema solar mais próximo, mas qual ?”

“Bom, como sabemos da mitologia, a figura formada pelas estrelas próximas à constelação de Cepheus lembra a duma figura humana sentada num trono – só que de cabeça para baixo. Para os gregos, isso representava a punição por um crime severo e logo associaram essa constelação ao mito de Cassiopéia: a vaidosa rainha da Æthiopia que comparou sua beleza à das Nereidas, filhas de Poseidon. Como punição, os deuses exigiram que sua filha, Andrômeda, fosse sacrificada ao monstro Cetus (uma besta similar a uma baleia) para que seu país não fosse inundado pelas ondas de Poseidon”.

“De cabeça para baixo estou eu a ficar, Nina”, disse Neves, “não estou a compreender onde queres chegar”.

“Bom, eu cá já nem sei se tenho cabeça”, suspirou Cleópatra, “que havemos de fazer ?”

Concordaram em consultar o Manual de Bordo, indagando qual o procedimento no caso de as três terem opiniões divergentes, introduziram os dados no computador central da nave de Nina (o mais poderoso de todos), o qual pouco depois despejou a resposta: "o sistema determina que três mulheres discordantes são demasiado teimosas nas suas opiniões, levando a um perigoso desequilíbrio de segurança, a solução indicada é elegerem um homem dos adormecidos qualificados e nomearem-no vosso chefe máximo - só um homem poderá lidar com 3 mulheres ao mesmo tempo sem se envolver em discussões inultrapassáveis".

"A máquina enlouqueceu", exclamaram as três, incrédulas.
(continua)

sexta-feira, março 02, 2007

Cleoseta


É da minha vista ou a minha amiga Cleópatra pediu para lhe fazerem uma seta com o nome do blog ?

Fotheringay





Aqui.

Contos Estelares - V


Capítulo II – Viagem pelo éter infinito

Neves olhou para a maquinaria da cabine que a rodeava e pensou como se enganara.
Estivera convencida de que o longo período de solidão que tinha começado iria ser entediante e chato, quando, pelo contrário, estava sempre a ser solicitada para as mais diversas tarefas.
Naquele momento acendeu-se a luz do robot Explorador, indicando mais uma vez que havia à frente um sistema solar possivelmente habitável; já era a 5ª vez que isso acontecia, nas restantes quatro vezes verificou-se rapidamente que era alarme falso.
Neves saltou e foi examinar o visor, onde já se estava outra vez a formar a mensagem “Demasiada radiação – impossível a vida humana”
Mais um falso alarme !
O grupo de naves há muito que tinha ultrapassado Alfa do Centauro, que estava a cerca de 4,2 anos-luz da antiga Terra – todos os planetas antes prometedores tinham sido contaminados pela implosão do sol terrestre, pelo que agora só havia uma coisa a fazer, tal como previamente combinado com os restantes: manter a formação de naves e seguir em direcção da nebulosa de Andrómeda onde a estrela Alfa de Andrómeda tinha à sua volta planetas prometedores; esta estrela estava a 97 anos-luz da antiga Terra e havia poucas possibilidades de a radiação libertada pela implosão do sol a ter afectado; ela e a sua gémea eram cerca de 200 vezes mais brilhantes que o sol e no seu núcleo registavam-se temperaturas da ordem dos 13.000 graus Kelvin.

97 anos-luz !
E as naves só podiam avançar à velocidade da luz, pois algumas delas não ultrapassavam tal velocidade – se queriam seguir juntos, os astronautas teriam que adoptar a velocidade dessas naves.
Neves ponderou o que deveria fazer.
Os outros astronautas estavam em hibernação, com os processos de envelhecimento praticamente parados; daí a 97 anos estariam mais ou menos na mesma.
Mas Neves estaria com mais de 120 anos e mesmo com as técnicas mais modernas de retardamento do envelhecimento estaria uma idosa muito mirradinha por essa época.
Lembrou-se a despropósito de uma frase do “Corsário Negro” de Emílio Salgari, que tinha lido na adolescência: “como resolver dilema tão atroz ?”
Mierda, mierda, pensou, estou metida numa embrulhada dos demónios.
Não, aquilo não podia ser assim, alguma coisa estava a falhar de certeza.
Neves introduziu os dados num computador portátil e esperou os resultados durante um bom bocado.
Finalmente apareceram: “Secção 3-C do Manual de Bordo, Capítulo 32, Versículo 10”.
Clicou no link respectivo e apareceu a regra do manual: “A nenhum membro da tripulação é lícito tomar decisões isoladamente que impliquem um período de tempo de adormecimento dos restantes superior a 10 anos; nessa eventualidade o tripulante deve acordar um adormecido qualificado e aconselhar-se com ele sobre a decisão a tomar; se as opiniões dos dois não forem idênticas ou razoavelmente semelhantes, deverão acordar um terceiro membro da tripulação, que desempatará”.
Bale !, suspirou Neves com alívio.
Decidiu acordar Cleópatra.

(continua)


quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Contos Estelares - IV

"Desculpar-me-á, Cleópatra, mas eu não disse que concordo com o Cem, limitei-me a registar admiração por uma atitude corajosa, embora - acrescento agora - totalmente inconsequente", disse Funes, sibilinamente.
"Homens, são todos iguais e só pensam numa coisa", respondeu irritadamente Cleópatra, acrescentando sotto voce "não fazem nenhum e só pensam em carcanhol, os inúteis".
Toda a gente educadamente ignorou a tirada cleopatraniana.

"Continuas-me a pisar os calos, mas há-de haver um dia de libertação" pensou Cem com os seus botões, mais concretamente com os seus fechos éclairs, dado que o seu uniforme não tinha botões.
Por sugestão de Neves, todos anuíram a entrar em pseudo-sono profundo, ficando apenas ela acordada.
"Estou farta de dormir", explicou Neves, "já tive a minha conta, mas vocês estão cansados e desgastados; a minha sugestão é a de que toda a gente descanse enquanto for possível".
Antes, porém, foi necessário colocar em rede permanente todos os computadores, estabelecer sistemas de segurança automáticos para o despertar do pseudo-sono no caso de alguma coisa acontecer a Neves, corrigir trajectórias das naves mais excêntricas e programar os sensores para a detecção automática de sistemas habitáveis.
"E música ?", perguntou Cem.
"Música ?!", disseram várias vozes.
"Sim, música, amigos, é sabido que durante o sono o cérebro humano aceita estímulos; desde que esses estímulos sejam adequados, o sono só terá a ganhar em descanso e divertimento da pessoa em causa; eu, por exemplo, poderei programar o meu computador para me proporcionar música dos sixties, que é a que eu mais gosto, tipo Beatles, Stones, Hendrix, Neil Young, Eric Clapton".
Assim as futuras e os futuros Belas(os) Adormecidas(os) escolheram as suas músicas.
Augusta Nina escolheu entre outros Diana Kroll, Eric Clapton e muita música clássica.
João e Marta, jovens já nascidos na nave, escolheram música concreta.
Cleópatra escolheu algumas melodias em que avultavam as canções de um tal Frank Sinatra e pulou de fúria quando alguém disse "pimba, pimba" no intercomunicador, mas não se deu por achada; em surdina, optou ainda pelo
Michael Bublé e pelo Rodrigo Leão.
Funes escolheu os clássicos.
Todos sabiam que aquele soninho iria durar várias décadas...
Fim do capítulo I
(continua)

Contos Estelares - III

Os heróis espaciais continuaram a dialogar durante longo tempo.
Cleópatra aceitou deixar de enviar remoques a 100anos.
Marta resignou-se a que alguma das outras mulheres enviasse volta e meia um sarcasmo a João: afinal de contas, como Marta sabia muito bem, João pertencia ao sexo inferior, ainda mais inferior que Funes ou 100anos, pois não comandava uma nave e era um subalterno naquela em que estava.
Aliás, todas as mulheres encaravam Funes e 100anos como uma espécie de “quase-pares”, pois eram comandantes de naves, por isso gente poderosa, mas eram homens, por isso gente algo inferior.
As coisas no espaço estavam a acontecer – exactamente – à velocidade da luz.
Concordaram em colocar todas as naves numa órbita hiperbólica tendo por eixo uma linha recta imaginária entre o desaparecido sol e a Alfa de Centauro, sendo que a ideia era que cada nave varresse com scanners a sua área no sentido de os computadores detectarem planetas habitáveis para o ser humano.
Funes, que estava quase a mudar o seu nome de El Memorioso para El Misericordioso, concordou em facultar a todos os outros os arquivos do Matriarcado Terrestre da Sempiterna Superioridade Feminina, incluindo os próprios registos que ele, Funes, já havia feito nesses arquivos desde a partida da Terra.

Neves de Ontem foi encarregada de todos os sistemas da nave de 100anos, à excepção do sistema de navegação, o que deixou as mulheres algo perplexas – na verdade, se 100anos pensara acordar Neves do seu sono criogénico, seria a coisa mais natural tirar partido da sua superioridade natural feminina colocando-a à testa de todos os sistemas significativos da nave.

“Não quero, desculpem lá mas o sistema de navegação controlo eu”, insistia Cem, renitente, “sempre fui eu a guiar os meus caminhos e não é agora que vou mudar”.

“Compreendo-o” declarou Funes, “e tiro o meu chapéu à sua coragem em afrontar o matriarcado nesta situação – é de homem, caray !”

“Senhor Funes, tenha dó”, adiantou Cleópatra, “contemporizar com um disparate é uma coisa, manifestar concordância activa com ele, é demasiado descarado”.

As outras mulheres (Augusta, Marta, Neves) emitiram murmúrios de acordo.
“Bom”, obtemperou Augusta, conciliadora, “agora o que interessa é mantermos a nossa pequena comunidade activa e eficiente – não haveria nada mais lamentável do que deixarmos escapar algum planeta habitável enquanto estamos para aqui a discutir o sexo das anjas”.
Apesar do tom conciliador, ficou no ar a ideia de que o pobre Cem era helpless.

(continua)

Cachimbo da Paz


Aqui está o Cachimbo da Paz (Peace Pipe) à maneira dos Shadows

Contos Estelares - II

“Olhe, Cleópatra, vamos fazer um pacto: você não me faz ameaças infantis e eu não me rio de si, OK ? Então pensava que eu vinha para o espaço exterior sem ter um escudo anti-projécteis capaz de travar qualquer ataque ?”.
Fez-se finalmente silêncio.
João, Marta, Augusta, Cleópatra, Funes e Cem mantiveram o silêncio durante tanto tempo que ele começou a ficar pesado. Todos eles pensavam na vida e na forma de sobreviverem. Por sugestão de Marta, puseram todos os computadores de bordo de todas as naves em comunicação, de forma a alargar a base de conhecimento de todos.
De súbito, os computadores começaram a emitir um sinal de alerta – não era um alerta de perigo imediato, era apenas um alerta de avaria no porão da nave de 100anos.
“Cem, consegue ir ver o que se passa, enquanto nós esperamos ?” indagou Funes.
“Vou tentar”. 100anos saiu da cabine de comando e começou a descer a longa escadaria sem gravidade que levava ao porão; aí chegado, verificou que uma figura estava sentada numa banheira criogénica, coisa muito estranha, pois a banheira criogénica destinava-se a deixar em hibernação qualquer ser vivo que lá se colocasse até ser despertada lentamente através de um processo de aquecimento artificial muitíssimo sofisticado.
O que teria corrido mal ? A figura sentada viu 100anos e exclamou “já não era sem tempo, Cem, por este andar deixavas-me congelada até ao dia do juízo final” – Neves de Ontem, em todo o seu esplendor de jovem salerosa, sorria.
“Ó Neves, que grande susto ! Mas então como estás acordada ?”.
“Deves ter sido tu a accionar o processo”.
“Não fui”.
Xiiiii – desculpem, meus amigos, mas o meu computador já fez merda”, disse Funes, “já compreendi – foi o meu computador, que está programado para a des-criogenização automática, que quando entrou em contacto com o computador do Cem enviou o sinal automaticamente e accionou o despertar da Nieves – olá Nieves, Bela Adormecida, voltaste à vida !”.
“Olá Prof. Funes, buenos ojos o vejam – ó Cem, ajuda-me aqui a sair deste sarcófago gelado, senão nunca mais me despacho”.
100anos lá foi ajudar – assim que carregou no botão da normalização criogénica cessou o aviso de alerta que estava a enervar toda a gente.
“Bom”, disse 100anos, “acho que devo uma explicação a todos: quando saí da Terra trouxe comigo algumas pessoas amigas clandestinamente; uma delas foi a Nieves; disfarcei-a de “Vitória de Samotrácia”, meti-a num molde de mulher sem braços (claro !) e quando a Polícia Inter-Estelar me inspeccionou o porão, disse que era uma estatueta de adorno; os tipos deixaram passar, a ela e aos outros que – estranhamente – continuam criogenizados”.
“Não é nada de espantar”, disse Funes, “claro que já anulei a ordem automática do meu computador, a partir de agora não vai des-criogenizar ninguém”.
No problem, Funes, eu de qualquer maneira ia mesmo despertar a Nieves a curto prazo, pois estou a precisar de ajuda na manipulação dos comandos desta nave”.
(continua)

terça-feira, fevereiro 27, 2007

Eureka ! Eureka !


Puxa vida, custou, mas descobri.
Descobri como colocar músicas na net, proporcionar às pessoas ouvi-las, sem lhes impor a música, só ouve quem quer.
Ora vejam, se quiserem:

Uma homenagem a Sandy Denny - versão instrumental a 3 violas da famosa canção Sandy Goes to Solo.

All Our Past Times, versão semi-acústica instrumental da canção do velho Clapton.

Perfídia, tocada numa viola eléctrica pura e dura, uma Gibson SG Special.

Are you lonesome ?


Estás só ?
Não te preocupes.

Muitos outros também estão.
Mais vale sozinho que mal acompanhado...
Curte a música do Elvis e deixa-te estar, que estás bem.
Clica aqui.


Are You Lonesome Tonight?
Elvis Presley
(words & music by Roy Turk and Lou Handman)

Are you lonesome tonight
do you miss me tonight
Are you sorry we drifted apart
Does your memory stray to a bright sunny day
When I kissed you and called you sweetheart
Do the chairs in your parlor seem empty and bare
Do you gaze at your doorstep and picture me there
Is your heart filled with pain, shall I come back again
Tell me dear, are you lonesome tonight

Spoken:
I wonder if you're lonesome tonight
You know someone said that the world's a stage
And each must play a part
Fate had me playing in love you as my sweet heart
Act one was when we met, I loved you at first glance
You read your line so cleverly and never missed a cue
Then came act two, you seemed to change and you acted strange
And why I'll never know
Honey, you lied when you said you loved me
And I had no cause to doubt you
But I'd rather go on hearing your lies
Than go on living without you
Now the stage is bare and I'm standing there
With emptiness all around
And if you won't come back to me
Then they can bring the curtain down

Is your heart filled with pain, shall I come back again
Tell me dear, are you lonesome tonight


Contos Estelares - apanhado geral

O sol foi ficando lentamente para trás.

O seu enorme disco foi diminuindo e ao fim de um mês de viagem, da nave “Platão”já só se via o disco solar através de instrumentos de alta precisão.
Foi então que o efeito Erkhart foi utilizado na propulsão – e a nave passou a viajar a uma velocidade 10 vezes maior que a velocidade da luz.
O mundo apagou-se, para trás da nave ficou um oceano negro.
Para frente... o desconhecido.
Na nave viajavam 900 mulheres e 100 homens, uma proporção considerada razoável, atendendo a que os homens podiam rapidamente fabricar muitos filhos e as mulheres demoram nove meses a fazê-lo.
Na sua nave gémea, “Aristóteles”, havia uma proporção de homens e mulheres semelhante (uma vez que a mulher é o ser mais avançado da Criação, achou-se que seria bom acentuar essa desproporção com os homens).
A Platão e a Aristóteles partiram da Terra quase ao mesmo tempo, apontando genericamente a Alfa do Centauro, mas fazendo caminhos diferentes – enquanto a Platão ia equipada com um motor Erkhart, a Aristóteles contava apenas com motores tradicionais, capazes apenas de a fazer avançar à velocidade da luz.
(...)

João olhou consternado para o monitor do computador.
Ficou uns minutos silencioso, até que se decidiu e chamou Marta: a cinco anos-luz verificava-se uma depressão no espaço muito mais pequena que um planeta mas com forte radiação – só podia ser uma nave espacial equipada com propulsão nuclear.
A nave enviava uma mensagem constante em linguagem binária, já quase esquecida pelos astronautas.
“São 12 números, todos zeros e uns” disse Marta com o seu ar autoritário.
Marta estava habituada à superioridade natural das mulheres e nunca disfarçava esse complexo de superioridade; ainda por cima achava alguma graça a João (já lhe tinha pregado uma ou duas partidas) e tinha tendência para o pôr no seu lugar, só para mostrar quem é que mandava.
“Já apanhei o código” exclamou João C – L – E – O – P – A – T - R – A.
“Coleópteros são antigos insectos que havia na velha Terra” disse Marta.
“Nada disso” – ouviu-se pela primeira vez em muitos anos a palavra da Profª Augusta Nina, há muito retirada nos seus aposentos, que se dedicava a uma arte antiga e pouco conhecida, a poesia.
“Cleópatra é o nome de uma rainha do antigo Egipto, adorada pelos homens e venerada pelos crocodilos”, explicou a professora – “além disso...”
“M – O – O – N”, completou João, “a nave está a enviar um sinal que significa CLEOPATRAMOON”.
Augusta semicerrou os olhos e disse, sonhadora “em tempos, há muitos anos, tive na Terra uma amiga que tinha por hábito usar esse nome numa publicação cibernética – coitada, já deve estar completamente torrada há dezenas de anos, desde que o sol se tornou numa supernova e implodiu, arrastando todo o sistema atrás dele”.
“Por acaso até estás enganada, Nina” disse uma voz feminina surpreendentemente juvenil, saída do computador.
Toda a tripulação deu um salto, incluindo a Augusta professora.
“Não se assustem” continuou a voz “desculpem, mas não foi difícil captar a frequência do vosso computador e comunicar de viva voz convosco – eu sou uma sobrevivente, tal como vós”.
(continua)
Cleo ?” – perguntou incrédula Augusta Nina.
“Herself, in person”, respondeu o computador, e continuou “deram-me esta nave para experimentar e a meio da experiência reparei que o sol se estava a desintegrar, então rumei a Alfa do Centauro, porque felizmente tinha os depósitos cheios; tenho urânio para dar e vender, comprei-o aos fellahs à revelia dos Américas, e foi um ver-se-te-avias – andei no espaço 3 meses até que vos vi”.
“3 meses ?!”, exclamou João, “mas nós estamos no espaço há 20 anos”.
“Vê-se logo que és homem, ó fedelho”, respondeu o computador, “nunca ouviste falar da compressão do espaço/tempo por acção da aceleração gravitacional ?”
“Afinal, quem é você e quem é que lhe deu confiança para falar assim, mesmo aos inferiores”, indagou Marta, furiosa e belicosa.
“Olha, filha, eu, rufias como tu, meti muitas no xelindró na velha Terra, quando por lá andávamos, mas deixa estar que aqui no espaço não tenho tempo para me ocupar de ti”.
“Mas que raio de merda vem a ser isto, caray ?” perguntou uma voz também vinda do computador, uma voz masculina com sotaque português nortenho.
“Não se cansem a tentar descobrir quem eu sou – também sou um sobrevivente – Funes, El Memorioso, para vossa sorte e azar meu !”
(continua)
“Olá Funes”, exclamou Cleópatra, “modesto como sempre”.
“Olá Colega” disse Augusta, sempre cool.
Ruído de fundo.
Mais ruído de fundo.
Ainda mais ruído de fundo.
Após 10 minutos de ruído ouviu-se claramente o código de identificação de uma nave Erkhart, produzindo um ruído cada vez mais escandaloso em que se podia reconhecer o “Made in Japan”, dos Deep Purple.
Smoke, on the water, smoke on the water, how did you lose your virginity, Marylou, when will you lose your stupidity, Marylou…”
“Porra, temos mais um conviva”, exclamou Funes “quem és tu, ó meu ?”
“UUUppss, já não estou sozinho – e quem pergunta o meu nome ó meu ?” ressoou o computador.
“Sou Funes, El Memorioso, nomeado pelo Matriarcado Terrestre da Sempiterna Superioridade Feminina para fazer a história destes viajantes espaciais – e agora, poderás responder à minha pergunta ? Quem és tu ?”.
“Sou o 100anos – chiça que em Terra escolhi o pseudónimo de 100 anos de solidão e já gramei com cinquenta aninhos a ouvir sozinho as músicas da minha criação – é bom vê-lo/ouvi-lo, caro Funes, é excelente ver que temos a Augusta Nina e a Cleópatra entre nós, está recomeçada a sociedade humana, mais coisa menos coisa”.
“Merda, que já perdi quinhentos paus”, ouviu-se no computador a voz de Cleópatra.
Augusta Nina exclamou “és tu, Cem ?, que engraçado, nós todos juntos numa esfera de cinquenta anos-luz, estamos mais próximos do que se estivéssemos a tomar uma bica do bar das letras”.
“Olhe lá, ó Dona Cleópatra, você está a exagerar”, disse 100anos, “os seus trejeitos autoritários aqui no deep space não valem uma petição inicial mal enjorcada, percebeu, sua ditadorazeca-de-trazer-por-casa ?”
Ouviu-se um ruído estrilhado, seguido de silêncio; passado um pouco ouviu-se a voz de Cleópatra “desculpem, mas sem querer atirei o microfone contra o computador de bordo e precisei de fazer o reset, mas já está tudo bem – olhe, ó senhor Cem, eu nunca lhe dei confiança para me falar dessa forma deselegante e desabrida, fique sabendo que já lhe apanhei o sinal astronómico e não me ensaio nada para lhe pregar com uma ameixa de 20 megatoneladas, percebeu, seu atrevido ?
(continua)

Contos Estelares

A historieta de ficção científica - bastante mais ficção do que científica :):):) - que comecei abaixo no post intitulado "Desafio ao Leitor" vai ficar com o nome de "Contos Estelares".
A partir de agora seguir-se-ão novos posts com essa indicação e um número de referência, para ilsutrar os capitulos (Contos Estelares - I, Contos Estelares - II, etc.).

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Desafio ao leitor

Desafio ao leitor:
Abaixo, vou iniciar uma “estória” de ficção científica; o que peço aos leitores é o favor de a continuarem nos comentários que queiram fazer.
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O sol foi ficando lentamente para trás.
O seu enorme disco foi diminuindo e ao fim de um mês de viagem, da nave “Platão”já só se via o disco solar através de instrumentos de alta precisão.
Foi então que o efeito Erkhart foi utilizado na propulsão – e a nave passou a viajar a uma velocidade 10 vezes maior que a velocidade da luz.
O mundo apagou-se, para trás da nave ficou um oceano negro.
Para frente... o desconhecido.
Na nave viajavam 900 mulheres e 100 homens, uma proporção considerada razoável, atendendo a que os homens podiam rapidamente fabricar muitos filhos e as mulheres demoram nove meses a fazê-lo.
Na sua nave gémea, “Aristóteles”, havia uma proporção de homens e mulheres semelhante (uma vez que a mulher é o ser mais avançado da Criação, achou-se que seria bom acentuar essa desproporção com os homens).
A Platão e a Aristóteles partiram da Terra quase ao mesmo tempo, apontando genericamente a Alfa do Centauro, mas fazendo caminhos diferentes – enquanto a Platão ia equipada com um motor Erkhart, a Aristóteles contava apenas com motores tradicionais, capazes apenas de a fazer avançar à velocidade da luz.
(...)

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Que grande farra !

Hoje andava "abonado" ao contrário do que tem acontecido nos últimos tempos, devido a despesas inesperadas e urgentes.
(Aliás este “secão” de dinheiro não me faz mal nenhum, pois não há nada mais idiota do que um tipo convencer-se de que é alguém só porque anda sempre com dinheiro farto no bolso – andar “liso” ou “limpo”, sem cheta, reconduz alguns neurónios mais manhosos aos seus devidos lugares, por isso até nem me queixo).
Mas, como digo, hoje estava abonado.
Por coincidência, passei à frente da minha livraria preferida, aqui ao pé de casa: estavam lá uma data de livros de ficção científica, da colecção Argonauta, que eu não tinha (tenho centenas e centenas de volumes da Argonauta, que comprei durante uns 25 anos e me têm acompanhado ao longo da minha vida); gulosamente, fui-os escolhendo, depois de me aperceber que custava 1 euro cada.
Comprei uma data deles.
Nos próximos tempos acho que me vou apartar um pouco do romance histórico e vou mergulhar de corpo e alma na ficção científica, que há muito não leio.
Gosto muito de alguns autores consagrados de FC, em especial do one and only Isaac Asimov – a trilogia da Fundação é qualquer coisa de realmente extraordinário.
De certo modo o futuro já chegou: se há 30 ou 40 anos soubéssemos que hoje se compram aparelhos que se ligam ao computador e fazem tudo sozinhos através de uma simples ligação USB, teríamos a sensação de estar perante robots inteligentes.
Espero que esta montanha de FC que comprei não me desiluda.
Falar-vos-ei disso mais tarde.

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

O Bokassa madeirense

Estava eu à espera que esta maltosa caísse na real depois do Carnaval, aparece o Bokassa da Madeira a fazer mais um dos seus golpes de rins e a desviar as atenções do essencial para a questão do mais dinheirinho ou menos dinheirinho para a porcaria da região autónoma.
Mais um favor que os xuxalistas lhe ficam a dever...

IKEA !

Quero aqui consignar a minha gratidão ao IKEA !
Há 20 anos que eu tinha os livros num badanal sem remédio.
Com as estantes do IKEA, compradas em módulos e montadas em casa, gastei menos de 100 contos e arranjei lugar para uns 3 mil livros.
É certo que os corredores ficaram mais estreitos e algumas paredes ficaram cobertas de livros.
Entretanto, quando realmente comecei a arrumar a livralhada, descobri que tinha alguns livros em duplicado e triplicado, resultado da confusão em que eles estavam.
Aqui fica uma velinha acesa de agradecimento.

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Três livros para escrever

Tenho três livros para escrever:

Um sobre questões técnicas e científicas, que ando há anos a programar e que não há meio de me sair para o teclado.
Outro sobre histórias passadas ao longo da minha vida, com episódios mais ou menos picantes e outros mais tristes ou alegres, consoante o período em causa.
Um terceiro, especificamente dirigido ao meu filho, a contar-lhe as pequenas historietas da vidinha dele – estou a fazer ao rapaz aquilo que eu adorava que o senhor meu Pai me tivesse feito.
O primeiro poderá chamar-se qualquer coisa como “O mundo digital”.
Ao segundo ainda não lhe encontrei título.
O terceiro será simplesmente chamado “Meu Filho”.
Peço sugestões sobre títulos para estas três obras de escrituração.

Angie

Estávamos em 1972. Eu estava na casa dos 20 anos, era universitário, usava o cabelo comprido, não fazia a barba e tinha fascínio pelos hippies. Um amigo desafiou-me a ir a Londres passar uma semana, disse-me que tinha uma casa “duns amigos” onde podia ficar, malta porreira. Lá fui.

Cheguei sozinho ao aeroporto de Gatwick, tomei o comboio para Victoria Station e dali o Metro para a Brompton Road; a casa onde eu ficaria situava-se nas proximidades. Quando lá cheguei, ultra cansado, fui bem recebido pela malta – todos eles (e elas) se pareciam vagamente comigo, éramos todos hippies – e pedi para tomar um banho. Levaram-me à cozinha !
Na dita cozinha havia uma espécie de uma arca, que se abria e quando a abriram verifiquei que dentro dela existia uma... banheira.
Subitamente, pela casa toda ressoa alto e bom som o “Angie” dos Stones, acabadinha de ser lançada.
Tomei um duche – fiquei longo tempo a sentir a água quente a inundar-me o corpo suado, a suavizar a secura dos poros; larguei um porradão de champô em cima da farta cabeleira e estive entretido a tirar o dito durante bastante tempo, de olhos fechados. Quando abri os olhos, uma loira com os seus 20 anos barrava calmamente um pão com manteiga e olhava-me apreciativa e ostensivamente, sorrindo abertamente quando baixava o olhar e focava as minhas “partes”. “Porra, que raio de filme é este ?” – foi o meu pensamento imediato (soube mais tarde que as regras da casa implicavam que nunca se podia fechar a porta da cozinha, pois as pessoas comiam a qualquer hora – quem queria tomar banho tomava à vontade, mas se tivesse que ser diante de toda a gente, estranhos incluídos, lá teria mesmo que ser). A loira sorriu mais uma vez, disse-me “Pas mal” e foi-se embora. Fiquei siderado, ainda um bocado zonzo por ter estado nuzinho em pêlo diante de uma beldade loura que – em Londres ! – se me dirigia em francês... Tive sorte: caí nas boas graças da diva – chamava-se Lydie e era uma trotskista francesa do Norte, vivia em Lille e volta e meia dava uma saltada a Londres para arejar ideias.
Claro que logo nessa noite dormi com ela (il faut faire la revolution, quand même) – aliás ela não me deu qualquer hipótese de fuga, pois quando a hora da deita se aproximou, olhou-me e declarou “je reste avec toi”. Passei uma semana absolutamente louca com ela – era uma sabidona, conhecia Londres melhor que os ingleses, frequentava o “Troubadour”, um barzinho com música ao vivo que rapidamente me deu a conhecer (onde toda a gente fumava “erva” da boa, com pedradas monumentais) e, last but not the least, atinava à brava comigo. Nunca mais a vi e sempre me ficou associada ao “Angie”.
Cada vez que oiço a canção lembro-me dela. Ah, Lydie, Lydie, quem serás tu hoje e onde estarás ?
A canção está aqui.

segunda-feira, fevereiro 19, 2007

Passarinho assassinado

Ao ler Saramago("As pequenas memórias"), hoje lembrei-me de uma história que aconteceu comigo há milhentos anos, que me ficou de emenda: O senhor meu Pai era caçador e chegou a apanhar caça grossa (não me refiro a senhoras, evidentemente, mas a caça mesmo...), um dia deixou-se tentar e comprou-me uma “Diana”, uma espingardita de pressão de ar, teria eu uns 13 ou 14 anos. Nesse Verão, em plenas férias, resolvi ir caçar, sem dizer a ninguém. Muni-me do chumbo necessário, de um cantil de água, de mais uma ou duas coisas, e ala que se faz tarde: fui-me emboscar ao pé de um regato onde os pássaros costumavam parar para se dessedentarem. Esperei, esperei, esperei. Lá apareceram uns quantos passarocos, mas a minha pontaria estava miserável. Cada tiro que atirava era uma revoada de pássaros a fugir e nenhuma “caça” ficava no chão. Até que consegui: fiz mira a um passarinho, firmei bem a alça da mira e trás, dei o tiro, acto contínuo o pássaro caiu morto à beira do regato com um tiro na cabecita. Exultei – estava quase a cair a noite e eu estava a ver que ia regressar de mãos a abanar. Depois, lá atei o pássaro à minha “cartucheira” e voltei para casa. Ao longo do caminho semi-montanhoso e depois já no povoado, o meu entusiasmo e alegria foram-se esboroando – não conseguia deixar de pensar no passarinho todo contente a debicar na água e na imagem seguinte – o pássaro morto, assassinado por um puto cujo único intuito era fazer tiro ao alvo; o desprazer da consciência de ter roubado uma vida à natureza foi-se apoderando de mim. Quando cheguei a casa ia triste como a noite, muitíssimo deprimido. Não disse nada ao meu Pai, corri a levar o cadáver do pássaro para sítio onde pudesse ficar em paz sem chamar atenções. Depois, acho que chorei um bocado. Sentia-me um assassino gratuito, estúpido, paranóico, uma besta que apenas por desporto tinha liquidado uma vida. Ficou-me de emenda. Não creio que tenha voltado a disparar a “Diana”. A imolação desnecessária daquele passaroco acabou por ser um marco importante para a formação do meu carácter, designadamente o meu respeito pela vida humana, animal ou vegetal.

Canção para uma Amiga triste

Tira a mão do queixo, não penses mais nisso
O que lá vai já deu o que tinha a dar
Quem ganhou, ganhou e usou-se disso
Quem perdeu há-de ter mais cartas para dar
E enquanto alguns fazem figura
Outros sucumbem à batota
Chega aonde tu quiseres
Mas goza bem a tua rota

Enquanto houver estrada para andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada para andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar

Todos nós pagamos por tudo o que usamos
O sistema é antigo e não poupa ninguém, não
Somos todos escravos do que precisamos
Reduz as necessidades se queres passar bem
Que a dependência é uma besta
Que dá cabo do desejo
E a liberdade é uma maluca
Que sabe quanto vale um beijo

Enquanto houver estrada para andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada para andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar

Enquanto houver estrada para andar

Esta mania...

De mexer à maluca nos comandos do "blogger" dá nisto !
Ainda não sei como cheguei aqui, mas com jeito e galhardia, lá iremos.
Não sei se esta será a configuração final, vamos lá ver...

Novo visual

O anterior já me estava a fartar.
A este novo visual ainda me estou a habituar.
Enjoy the visit.

Lobo Antunes – o rei vai nu, ó escândalo !

Ontem pus-me a ler um dos últimos livros de Lobo Antunes – “Ontem não te vi em Babilónia”.
Li, reli e tresli logo nas primeiras páginas.
Voltei a reler e a tresler.
Até chegar à conclusão inexorável, esmagadora, acabrunhante: isto é uma boa merda !
Estou espantado com a minha ousadia, mas não posso negar a minha impressão, apesar de ir contra toda a “comunis opinio”: na minha opinião de leitor impenitente e de devorador de livros, a “Babilónia” está mal escrita, faltam-lhe termos essenciais para a compreensão das frases, não tem pontuação (mas isso já foi feito por Saramago, com bastante mais sucesso), sucedem-se frases ininteligíveis umas atrás das outras.
Bom Deus, que devo eu fazer ?
A escrita deste livro de Lobo Antunes é tão arrevesada que me consegue reconciliar com Saramago, de quem estou a ler com gosto e proveito “As pequenas memórias”.
Isto é um escândalo e eu sou um atrevido, mas não consigo tirar da ideia de que Lobo Antunes resolveu escrever uma trampa qualquer só para gozar com o pagode e rebolar-se de íntima galhofa ao ver uma coisa daquelas, escrita na gozação, a ser incensada pelos críticos e pelo público pedante que não percebe pevas mas finge que percebe.
Confesso que tenho uma alma simples e pouco letrada – assumindo-me como o básico dos básicos, solto aqui o grito de alma que o livro me provoca: porra, o rei vai nu, ninguém percebeu ?

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Publicozinho

Dantes comprava o Público quase todos os dias.

Depois a qualidade começou a decair, a decair.
A certa altura cheguei à conclusão de que comprar o Público era um exercício de masoquismo – tudo aquilo desagradava e o pouco de útil que lá vinha também vinha em todos os outros jornais, mais baratos e menos atreitos a “jornalismos de causas”.
Há muito tempo que deixei de o comprar, portanto.
Oiço agora algumas vozes difusas queixando-se de que o Público mudou, aumentou as fotografias e tornou-as mais vistosas ao mesmo tempo que vão diminuindo os conteúdos.
Não é para admirar: um jornal que despede jornalistas seniores e contrata estagiários para os substituir afunda-se a pique na escala da qualidade.
Aquilo que em tempos foi um jornal de referência transformou-se numa boa trampa.

É preciso ser estúpido !

No Brasil o Carnaval calha sempre no pino do Verão.
Por isso é que naquelas festas imensas as mulheres e os homens têm à vontade para se “descascarem” e bailarem uns com os outros quase na figura em que vieram ao mundo.
As beldades brasileiras em trajes minúsculos tornaram-se um “ex-libris” do Carnaval brasileiro
Vai daí os portuguesinhos, que em Fevereiro estão sempre em pleno Inverno e por vezes com um frio de rachar, resolveram imitar os brasileiros e é vê-los, principalmente vê-las, boazudas e descascadas a dançarem no meio da malta e a raparem um frio desgraçado que só não dá em pneumonia por sorte

Chiça, que é preciso ser estúpido !

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