Blog que trata dos livros, da leitura, da música e da reflexão política e social.

domingo, abril 26, 2009

26 de Abril

Pela primeira vez nos últimos 35 anos não celebrei o 25 de Abril.
Sinto-me demasiado desencantado, enganado e indignado com o regime democrático.
Claro que o 25 de Abril valeu a pena apesar de tudo, mas, que diabo, 35 anos depois isso é muito pouco.

sábado, abril 25, 2009

Valem zero


Esta gente leva-se muito a sério.
Nós, europeus ???
Então e... nós, tachistas, nós, vígaros da alta finança, nós, políticos que os protegemos, nós, portugueses que apertaram o cinto para nada, nós, afogados em processos de corrupção ?...
Então se eles é que são europeus, os dos outros partidos são o quê ?
Estrangeiros, alienígenas, extra-terrestres ?
Palavras balofas, cheias de vento, procura-se-lhes um significado, um conteúdo útil - e nada.
Não se vê um projecto, não se vislumbra uma estratégia, não se percebe rigorosamente nada das suas ideias sobre a Europa.
Valem zero.

sexta-feira, abril 24, 2009

El Mojado

O Molhado - é um hino lindíssimo contra o racismo e os nacionalismos autoritários.
Absolutamente imprescindível de ouvir e seguir a letra.



El Mojado(?)
Empacó un par de camisas, un sombrero,su vocación de aventurero, seis consejos,7 fotos, mil recuerdos,
empacó sus ganas de quedarse,su condición de trasformarseen el hombre que soñó y no ha logrado,
dijo adiós con una mueca disfrazadade sonrisa y le suplicó a su Dios crucificadoen la repisa el resguardo de los suyos,
y perforó la frontera como pudo.
Si la luna suave se deslizapor cualquier cornisa sin permiso alguno, por qué el mojado precisacomprobar con visas que no es de Neptuno.
El mojado tiene ganas de secarse,el mojado está mojadopor las lágrimas que bota la nostalgia;
el mojado,el indocumentado, carga el bultoque legal no cargaríani obligado
el suplicio de un papello ha convertido en fugitivo,y no es de aquí, porque su nombreno aparece en los archivos,ni es de allá porque se fue.
Si la luna suave se desliza por cualquier cornisasin permiso alguno, por qué el mojado precisa comprobar con visas que no es de Neptuno.
Mojado sabe a mentira,tu verdad sabe a tristeza,la ansiedad de ver un primo y soñar con la veredaque conduce hasta tu casa.
Mojado,mojado de tanto llorar, sabiendoque en algún lugar te espera un beso, haciendo pausa desde el dia que te marchaste.
Si la luna suave se desliza por cualquier cornisasin permiso alguno, por qué el mojado precisa comprobarcon visas que no es de Neptuno.
Si la visa universal se extiende el dia en que nacemosy caduca en la muerte, por qué te persiguen, mojado,si el cónsul de los cielos ya te dio permiso.

Puxar a sua própria bicicleta




Cada um tem que pedalar na sua própria bicicleta...
Pois.
Quando se anda num BMW topo de gama o pensamento chega a ser poético.
O problema é quando se cai na realidade.

quarta-feira, abril 22, 2009

O processo de Moura Guedes contra Sócrates

Ao propor um processo contra Sócrates em virtude do que ele disse ontem sobre os telejornais de 6ª Feira da TVI, Manuela Moura Guedes mostra que não é melhor que ele.
Não é que eu esperasse dela uma atitude com classe: as bocas que manda, as boquinhas que faz, os apartes coloquiais que faz no telejornal, a conversa de café que adopta, as interrupções constantes aos seus convidados impedindo-os de alinharem duas ideias seguidas, a superficialidade do seu discurso, a sua postura de garota mimada e espevitada já não auguravam nada de bom, é certo.
Mas era expectável que tivesse bons assessores que a aconselhassem com um mínimo de sensatez.
Pelos vistos não tem.
Processa o Primeiro Ministro por este dizer, por outras palavras, que o seu telejornal é uma boa m...da – então e depois, o homem não tem direito a exprimir uma opinião sobre o jornalismo da madamme ?
Que é feito do acrisolado amor à liberdade de expressão da senhora jornalista ?
Vai perder o processo – e vai ter que engolir uma sentença explicando-lhe porque é que a liberdade de expressão está muito acima dos seus estados de alma.

Adenda: hic et nunc declaro que se por acaso a jornalista Manuela Moura Guedes ou qualquer outra pessoa declarar publicamente que acha este blog – o meu blog ! - uma bela trampa, não me passará sequer pelas meninges processar essa pessoa que, se calhar, até tem alguma, ou muita ou toda a razão.

Tragédia gastronómica

Já me tinha habituado aos elogios da família e amigos às minhas artes culinárias.
Levado pela soberba, abalancei-me a fazer uns filetes de pescada e de palmeta, na base do “olhómetro”, sem apurar preto-no-branco quais os seus ingredientes e o “modus faciendi”.
Foi uma tragédia.
Os filetes de palmeta ficaram piores que os de pescada.
Os de pescada ficaram uma boa m...da.
Todos ficaram com ar suspeito, com ar de refugo de restaurante de terceira categoria e um gosto esquisito difícil de qualificar.
O meu filhote declarou que não tinha fome e escapou-se para o quarto – vim a descobrir que comeu depois discretamente uma taça de cereais e umas salsichas de lata.
A minha segurança como cozinheiro está profundamente abalada – é que nem sequer tenho a consolação de pensar que estou a ser alvo de uma injustiça porque aquilo estava mesmo mau.
Terei de recomeçar a minha carreira culinária do zero.

Entrevista de Sócrates à RTP


Sócrates produz um discurso desleal (porque pretensamente respondendo a perguntas, mas sem lhes dar resposta alguma), irrealista e sempre arrogante.
Inteiramente de acordo, portanto, com
Rui Costa Pinto, aqui:
Sócrates abalado
A entrevista de José Sócrates revelou um primeiro-ministro abalado, reactivo e justificativo. Apesar de negar a evidência comentada por todos os analistas, José Sócrates tentou alijar o peso das críticas presidenciais, sem conseguir disfarçar a irritação (impotência)
.(...)

Realmente, este homem não parece um político – parece um apóstolo fanático sem rasto de cultura democrática: julga-se um iluminado que nunca errou e jamais errará e parece genuinamente incomodado (e irritado) por nem toda a gente dar isso de barato.
Ter um Primeiro Ministro destes é dramático para qualquer país; para Portugal, sem grandes tradições democráticas e com uma sociedade civil muito débil, é trágico.

domingo, abril 19, 2009

BMWs parlamentares




A Assembleia da República resolveu comprar novos carros para alguns dos senhores deputados.
Foram 14 BMWs topo de gama com um custo total rondando os 900.000 euros.
Veja-se aqui a reportagem da TVI.
Comentário: eu também tenho um BMW, não é um topo de gama, mas anda bastante bem.
A diferença é que o carro, o respectivo seguro e a sua manutenção foram/são pagos por mim e não pelo erário público.
A culpa é minha, claro: quem me manda a mim não ser deputado ???
A única consolação que tenho é a de que o meu BMW, não sendo parlamentar, não é também para-lamentar.

sábado, abril 18, 2009

Mais vale tarde que nunca

Manuela Ferreira Leite na TSF:
«A justiça atravessa hoje em Portugal uma fase muitíssimo complexa. Para além de outros factores que já fragilizaram o sistema de justiça, o Engº. Sócrates acrescentou a este sistema o ataque e uma intencional desqualificação dos agentes deste sector», afirmou Manuela Ferreira Leite.
«Por isso, actualmente existe uma enorme incomodidade e revolta entre os magistrados mas o que é mais preocupante no sistema de justiça é o descrédito dos cidadãos face ao funcionamento do sector».

Comentário: é pena que a Tia Manuela só agora se tenha dado conta disso.
É que a actual política governamental para a área da justiça, cujo traço fundamental é a agressão das magistraturas à pala da luta contra os corporativismos, tenha sido iniciada pelos seus dilectos camaradas Aguiar Branco e Paulo Rangel.
Bom, mas em qualquer caso, mais vale tarde que nunca.

Custas dos processos de Entre-os-Rios

O que é previsível – e sempre foi – é que os familiares dos mortos da queda da ponte de Entre-os-Rios, embora condenados em custas, nunca as venham a pagar.
Basta o MP, seguindo ou não uma directiva da PGR (que aparecerá de certeza, se for necessário, pois a dita anda super-hiper-ultra politicamente correcta) escrever três palavrinhas quando o processo lhe fôr presente para efeitos de eventual execução por custas : “não instauro execução”.
Se assim é, e se isso já é previsível há que tempos, porquê este alarido que anda por aí a ressoar em tudo quanto é jornal, rádio e TV ?
Talvez para tornar essa decisão do MP totalmente irreversível.
Mas eu creio que há aqui outro factor: é que aquela malta já não passa sem os holofotes dos media e viu nesta porcaria das custas uma forma de mais uma vez aparecer nos noticiários.
Que tristeza.
É que estas porcarias entristecem mesmo.

Durão ou não ?

Quando um dos vectores fundamentais de uma campanha eleitoral europeia é a querela entre os dois maiores partidos sobre se devem ou não apoiar a continuação de Durão Barroso na presidência da comissão, está tudo dito: isto está cada vez mais na mesma.
Como venho fazendo nos últimos 10 a 15 anos, a minha opção está feita: mais uma vez não voto.

sexta-feira, abril 17, 2009

Senhor Engenheiro

(...)Senhor Engenheiro, dê-me um pouco de atenção (...)

quarta-feira, abril 15, 2009

Porto eliminado pela Manchester United

Mas calma, nada está perdido.
Amanhã os maiores responsáveis dos clubes de futebol iniciarão novos negócios, arranjarão maneira de corromper novos árbitros, farão arranjinhos com autarquias para inflacionar o valor de certos terrenos, negociarão com as autoridades do país a lucrativa construção de mais uma boa meia dúzia de estádios desnecessários, continuarão a fazer do futebol aquele festival de podridão que todos conhecemos.
Tudo na mesma, portanto.
Sursum corda, portanto, não faltarão oportunidades de fazer com que isto fique cada vez mais na mesma...

Sociedade de desperdício

Remetido durante alguns meses ao Alentejo profundo, por mor de obrigações familiares, descobri que estava constipado, com um pingo no nariz.
Como tenho cá poucos lenços, resolvi comprá-los.
Entrei numa lojeca tutti fruti de uma vilória/aldeola improvável e perguntei se tinham lenços.
A menina que estava a atender fez-me um sorriso luminoso e disse-me que sim – conduziu-me ao sítio onde estavam montes de pacotes de lenços de papel.
Perguntei-lhe se não tinham lenços de pano e ela olhou para mim com cara de quem olha um extra-terrestre e disse que não.
Comprei os lenços de papel.
Eram perfumados, com um perfume de bar de p... que me deixou mal impressionado (não tenho nada contra os bares de p..., mas se tiver que ser gosto de ser eu a escolher o cheiro a p..., enfim, adiante).
Depois assoei-me, que bem precisava.
Com essa assoadela foi-se um lenço.
No meu tempo usavam-se lenços de pano que depois de razoavelmente usados eram lavados e postos a servir de novo.
Com os lenços de papel,viste-lo !
Nova assoadela, novo lenço.
Esta merda desta sociedade de desperdício leva a que até uma porcaria de uma ranhoca dê origem a um desperdício.
Por cada constipação o mundo terá que reciclar provavelmente umas boas toneladas de papel.
Que raio de filme !

sábado, abril 11, 2009

O folar da Páscoa



A Senhora minha Mãe, oriunda de Macedo de Cavaleiros, costumava fazer na Páscoa um bolo salgado a que se chamava lá em casa o “Folar da Páscoa”.
Vim a saber mais tarde que há diversos folares da Páscoa e que o folar feito lá em casa se chama normalmente “Bola de Carne” noutras partes de Trás-Os-Montes.
Seja qual for o nome, é uma delícia.
Implica muita paciência, porque há que esperar uma hora a hora e meia para a levedura (fermento) crescer e outro tanto para a massa já feita voltar a crescer.
É uma receita rica, pois leva muitos ingredientes caros, mas actualmente está ao alcance de qualquer bolsa média – sai mais barato fazer um folar em casa para 10 pessoas do que duas pessoas irem jantar fora ao restaurante.
Estou na dúvida sobre se devo divulgar a receita da Senhora minha Mãe, que me foi confiada pela própria, antes de passar a outra dimensão; vou consultar os meus irmãos indagando se acham bem tal divulgação e voltarei à carga, se for caso disso.

sexta-feira, abril 10, 2009

Que chatice !





E depois ainda dizem que querem ganhar as eleições...
Ultima hora: segundo o Público relata, salvaram-se os saltos altos e a lingerie escura - vá lá, do mal o menos.

quinta-feira, abril 09, 2009

O record da estupidez


De chorar a rir - Berlusconi imparável, superando-se a si próprio, volta a melhorar o seu record de estupidez, na feliz síntese do blog Porque me Dizem.

Enriquecimento – II

Vejo que há ainda muita gente confusa com a história do enriquecimento e do ónus da prova.
Já vi escrito várias vezes que a inversão do ónus da prova acabará por obrigar o cidadão a provar que está inocente, quando na verdade era à polícia e ao MP que caberia o encargo de provar que é culpado.
Nada disso.
Insisto que não há inversão do ónus da prova.
Para melhor exemplificar, vou recorrer a um exemplo saído directamente de um conto policial:
Imagine você que tem um ódio profundo por um vizinho - o homem é labrego, burgesso, apanha pielas de caixão à cova e arma tremendas barafundas alcoólicas à porta do prédio, espanca a mulher e os filhos, é conhecido por ser vígaro e dar a sua perninha de ladrão, tem a mania de pôr o carro em 2ª fila e emparedar os carros alheios e ainda por cima aparece depois com cara de provocador perguntando “o que foi ?” quando o dono do carro emparedado protesta.
O tipo é execrável, uma besta completa e V. já uma ou duas vezes perdeu a calma e lhe disse que não se ensaiava nada em lhe dar um enxerto de porrada se ele continuasse a sua senda de anormalidade militante e provocatória; da segunda vez V. foi-lhe aos fagotes e deu-lhe uma murraça no focinho.
Um belo dia V. vai sair de casa e dá com o seu carro emparedado pelo carro do alarve.
Volta ao prédio e toca na campainha do animal.
Ele não responde.
V. chateia-se e vai mesmo lá a casa, encontra a porta aberta e dá com um cenário dantesco – a mulher está desmaiada a um canto, o homem está morto com uma faca espetada no peito; V. tenta ajudar e extrair a faca do corpo do homem, convencido que ele ainda pode escapar.
Passados dez minutos chega a polícia e dá com esta cena: o homem esfaqueado e morto e V. no meio da confusão, coberto de sangue e com uma faca na mão.
Vem-se a descobrir que V. já tinha andado à pancada com o morto e que o tinha ameaçado várias vezes que lhe “fazia a folha”.
A polícia tem a prova praticamente feita: V. chegou ao seu carro, verificou que estava emparedado, foi protestar, zangou-se com o animal, entrou numa cena de pancadaria com ele e no meio da refrega deu-lhe uma facada que o matou.
Por outras palavras: V. foi apanhado numa posição altamente comprometedora, todos os indícios apontam no sentido da sua culpabilidade.
Vai ter que provar que não é o autor do crime, vai ter que procurar testemunhas que saibam mais ou menos o que se passou, vai ter que procurar outros indícios que levem à identificação do verdadeiro autor do crime (a talhe de foice, se isto fosse mesmo um conto policial, eu optaria por uma quadrilha de traficantes de droga ter matado o homem em retaliação a uma “banhada”).
A polícia tinha o ónus de provar que V. é culpado – e prova que V. e o morto tinham péssimas relações, que V. já lhe tinha uma vez afeiçoado as faces, que V. estava na cena do crime imediatamente após o seu cometimento com uma faca na mão que foi identificada como a arma do crime e coberto com o sangue da vítima.
V. tem que provar, naturalmente, todos os factos que contrariem a versão policial.
Houve aqui alguma inversão do ónus da prova ?
Não, não houve.
Ora o cidadão que é dono de um vasto património e que não consegue de forma nenhuma explicar de onde lhe veio aquela massa toda está numa situação semelhante à sua, no exemplo indicado: está numa posição altamente comprometedora.
Caber-lhe-á, tal como lhe coube a si no exemplo acima, provar que apesar de todos os indícios comprometedores, a aquisição da sua fortuna comprovada teve origem lícita.
Não houve igualmente inversão do ónus da prova.

Enriquecimento ilícito e ónus da prova

A dicotomia entre enriquecimento ilícito e ónus da prova está mal compreendida pela rapaziada do PS.
Com cursos tirados ao Domingo e aprovações por “fax”, pois naturalmente que os juristas do PS têm alguma dificuldade em compreender estas miudezas da ciência jurídica.
Vou tentar explicar, como se os meninos fossem muito burros (que não são, são é ignorantes, embora espertalhões).
Ónus da prova é o encargo que incumbe à pessoa que alega um facto que consiste em ter de o provar.
Quem alega um facto tem o ónus de o provar.
Certo ? Nenhuma confusão nessas cabecinhas até agora ? Então vamos adiante.
O que é o enriquecimento ilícito ? É o enriquecimento de alguém através de trapalhices, corrupções, desonestidades, fugas ao fisco, branqueamento de dinheiro, etc..
Um sujeito que ganha 2.000 €/mês e tem uma vivenda que custou 1.000.000 € com toda a certeza que não custeou a vivenda com o produto do seu trabalho, mas pode tê-la adquirido legitimamente: ganhou a lotaria, uma tia velhota e rica deixou-lhe uma choruda herança, a mulher meteu-se num negócio que foi altamente rentável, etc., há mil e uma possibilidades de uma pessoa enriquecer por forma honesta.
Mas se a pessoa em causa não puder provar de onde lhe veio o dinheiro para a compra da vivenda, então há que concluir que o seu enriquecimento foi ilícito (acontece muito nas repúblicas das bananas, em algumas repúblicas altamente subsidiadas e/ou em países onde o dinheiro a entrar “por fora” se tornou um hábito designadamente ao nível do financiamento partidário).
O Ministério Público tem que provar que aquele sujeito, com aquele rendimento conhecido e com todas as outras fontes de rendimento lícito que apresenta, não podia de forma nenhuma comprar a vivenda de 1 milhão.
O sujeito tem o ónus de provar que, pelo contrário, foi com rendimentos lícitos que comprou a vivenda: pode, por exemplo, tentar isaltinar, ou seja, alegar que aquela catrefada de massa que tem são “sobras” de campanhas em que beneficiou de donativos.
Não há aqui qualquer inversão do ónus da prova.
É claro que isto só funciona quando a discrepância entre o rendimento lícito e a fortuna apurada é substancial e muito relevante; casos de pequena corrupção jamais serão detectados através deste mecanismo, dirigido às fortunas substanciais.
É assim tão difícil de compreender ?
Mesmo para juristas formados ao Domingo ?

terça-feira, abril 07, 2009

A Mulher do Cônsul

Um pequeno excerto de uma novela de Steven Saylor, da série Roma sub-rosa, onde se fala de uma Safo muito perigosa.
A Mulher do Cônsul

Francamente — murmurou Lúcio Cláudio, com o nariz enterrado num rolo de pergaminho — quem lesse os relatos das Actas do Dia julgaria que Sertório é um miúdo traquinas, e que a rebelião que organizou em Espanha não passa de uma partidinha inocente. Quando se aperceberão os cônsules da gravidade da situação? Quando se decidirão a agir?
Pigarreei.
Lúcio Cláudio baixou o rolo de pergaminho e ergueu as hirsutas sobrancelhas ruivas.
- Gordiano! Por Hércules, vieste a correr! Senta-te.
Olhei em redor à procura de uma cadeira, mas depois lembrei-me onde estava. No jardim de Lúcio Cláudio, as visitas não andavam a arrastar peças de mobiliário. As visitas sentavam-se nas cadeiras que, nesse preciso momento, eram suavemente posicionadas para o efeito. Avancei para a mancha de luz onde Lúcio estava sentado a gozar o sol, e flecti os joelhos. Como era de esperar, o meu peso foi sustentado por uma cadeira. Nem sequer cheguei a ver o escravo que tratou disso.
— Queres beber alguma coisa, Gordiano? Por mim, estou a tomar uma agradável taça de caldo quente. É cedo demais para beber vinho, mesmo que seja diluído em água.
É meio-dia, Lúcio, não é assim tão cedo. Pelo menos para quem se levantou de madrugada.
(...)
Lúcio inclinou-se para a frente e deu uma pancadinha no pergaminho com a ponta do indicador.
- Lê essa parte. Em voz alta.
- «A traça espeta a cabeça de fora amanhã. Presa fácil para o pardal, mas as perdizes passam fome. Diz a Safo de olhos de fogo: Suspeita! Um punhal atinge o alvo mais depressa que um raio. Melhor ainda: mais depressa que uma seta. Que Vénus conquiste a todos!»
Lúcio recostou-se na cadeira e cruzou os braços carnudos.
- O que achas disto?
- Julgo que lhe chamam uma comunicação anónima; é uma coscuvilhice publicada em código. Sem nomes próprios, só com pistas, sem significado para os não iniciados. Dada a menção a Vénus, imagino que esta seja sobre um caso amoroso ilícito. Duvido que conhecesse os nomes das pessoas envolvidas, mesmo que eles tivessem sido escritos com toda a clareza. Tens muito mais probabilidades do que eu de saber o que tudo isto significa, Lúcio.
— Pois tenho. Na verdade, receio saber mesmo, pelo menos em par-te. Foi por isso que te chamei, Gordiano. Tenho um grande amigo que precisa da tua ajuda.
Ergui uma sobrancelha. Já noutras ocasiões os amigos ricos e poderosos de Lúcio me tinham proporcionado trabalhos lucrativos; e também me tinham obrigado a correr grandes riscos.
- E que amigo é esse, Lúcio?
Ele ergueu um dedo. Os escravos que nos rodeavam retiraram-se silenciosamente para dentro de casa.
- Discrição, Gordiano. Discrição! Lê novamente a notícia.
- «A traça...»
- E a quem foi que eu chamei traça há momentos?
Pestanejei.
- A Décimo Bruto, o Cônsul.
Lúcio assentiu com a cabeça.
- Continua a ler.
- «A traça espeta a cabeça de fora amanhã...»
- Deci decidiu ir amanhã ao Circo Máximo, assistir às corridas do camarote consular.
- «Presa fácil para o pardal...»
- Tira as tuas conclusões... em especial da referência seguinte aos punhais e às setas.
Ergui uma sobrancelha.
- Estás convencido de que há uma conspiração contra a vida do cônsul, com base numa comunicação anónima, publicada nas Actas do Dia? Parece-me um bocado forçado, Lúcio.
- Não sou eu que estou convencido. É o próprio Deci. O pobre sujeito está num estado; veio a minha casa e obrigou-me a sair da cama há uma hora, pedindo-me desesperadamente que o aconselhasse. Precisa de alguém que vá ao fundo desta questão, discreta e rapidamente. Eu disse--lhe que conhecia o homem ideal para isso: Gordiano, o Descobridor.
- Eu? - Olhei, de sobrolho franzido, para um caroço de azeito-na que segurava entre o indicador e o polegar. — Considerando que as Actas são um órgão oficial, certamente que o próprio Décimo Bruto, na sua qualidade de cônsul, estará na melhor posição possível para de-terminar a origem desta notícia, e o seu real significado. Para começar, quem foi que a escreveu? .
- O problema é justamente esse.
- Não estou a perceber.
- Estás a ver essa parte sobre «Safo» e o conselho que ela dá? — Estou.
- Gordiano, quem achas que escreve e edita as Actas do Dia? Encolhi os ombros.
- Nunca pensei nisso.
- Então vou dizer-te. São os próprios cônsules que ditam as notícias relativas à política, interna e externa, fornecendo o seu ponto de vista, que é a posição oficial. As partes menos importantes, os números relativos ao comércio, às contagens do gado, e outros do género, são compiladas pelos funcionários do gabinete do censor. As notícias do desporto são fornecidas pelos magistrados encarregados da gestão do Circo Máximo. Os áugures são a fonte das histórias acerca dos relâmpagos, dos cometas, de legumes com formatos curiosos e de outros presságios bizarros. Mas quem é que pensas que controla as notícias da sociedade, os anúncios de casamentos e nascimentos, as reuniões sociais, as «comunicações anónimas», como lhes chamaste?
- Uma mulher chamada Safo?
- É uma referência à poetisa da antiga Lesbos. A mulher do cônsul também é uma espécie de poetisa.
- A mulher de Décimo Bruto?
- Foi ela que escreveu essa notícia - Lúcio inclinou-se para a frente e baixou a voz.
- Deci está convencido de que ela planeia matá-lo, Gordiano.

segunda-feira, abril 06, 2009

Sócrates vs. Santana

De uma coisa eu tenho a certeza - e tenho a sensação de que esta certeza é partilhada por muita gente: se as confusões do caso Freeport tivessem acontecido no tempo do Santana Lopes, já tinham calçado um par de patins ao "menino guerreiro" há que tempos e já o tinham posto a passar férias num qualquer spa bem rodeado por algumas Barbies sorridentes e bronzeadas.
Com a socrática personagem, é tudo muito diferente.
Sorte a dele, azar do Santana (apesar do spa e das Barbies...).

Muita areia

É sabido que o Primeiro Ministro anunciou publicamente a propositura de uma acção judicial contra o jornalista João Miguel Tavares, por um texto que este publicou num jornal.
Fui ver o texto em causa, para tentar compreender as causas da indignação justiceira socrática.
Não compreendi.
Para além de uma crítica política porventura agreste, não vejo em que é que o referido texto pode ser havido como insultuoso ou difamatório.
Propor esta acção é sinal de uma grande falta de lucidez - basta conhecer um pouco da legislação e jurisprudência sobre a matéria para se concluir que há uma fortíssima probabilidade de o jornalista vir a ser absolvido em juízo.
A instauração do processo só poderá ter uma explicação política.
Mas tentar atingir fins políticos através de acções judiciais pode ser perigoso e em qualquer caso será sempre de resultado muito duvidoso.
Continuo a não compreender - isto é muita areia para a minha camioneta.

domingo, abril 05, 2009

Som triclínico e figuras tristes


Ele há coisas mesmo chatas.
Uma delas é um gajo fazer figura de parvo.
Estou com um melão de todo o tamanho.
Duas das minhas violas estavam a dar um som esquisito, cheio de ruídos e desequilibrado.
Fiz testes e mais testes e o problema continuou.
Bom, meti-me no carro, fiz uns 120 Km e fui pôr a questão ao meu mágico das violas, o Gil Oliveira.
O Gil testou-as de todas as maneiras e feitios e o resultado veio célere: as duas violas estavam impecáveis.
Depois teve a gentileza de me explicar aquilo que eu já devia saber há séculos: muitas vezes o som é prejudicado por detalhes como a falta de terra no amplificador, a falta de fiabilidade de um cabo, o desacerto da configuração do som.
Vim para casa e o problema resolveu-se imediatamente com um “jack” novo, blindado e cheio de efes e erres.
Moral da história: mais vale comprar pouco e bom do que muito e barato – um bom “jack” é essencial para qualquer viola electro-acústica ou eléctrica.
Além do mais evita que o guitarrista faça figura de urso.

sexta-feira, abril 03, 2009

Pressões

Qualquer magistrado está sujeito a pressões, ser pressionado faz parte da profissão.
Mesmo extraprocessualmente há notícia de pressões que podem ser consideradas irrelevantes - a conversa de café, a alegação “de gabinete”, o telefonema do amigo que já não aparecia há 15 anos e por acaso é amigo de uma pessoa interessada num processo.
Os magistrados estão (ou devem estar) preparados para pressões muito mais elevadas, que igualmente não deverão ter sucesso.
Mas quando essa pressão assume a forma de conversa em que como que por acaso é referida a conveniência de o magistrado adoptar certa conduta sob pena de isso se poder repercutir na sua progressão profissional, isso já me parece uma pressão ilegítima e censurável.
Não sabemos se foi isso que aconteceu recentemente no caso Freeport, mas há indicações nesse sentido correndo na imprensa - v. aqui.
Há, por outro lado, indicação de que o Procurador Geral Dr. Pinto Monteiro tentou que os dois Procuradores em causa assinassem um documento atestando que não tinham sofrido pressões e estes recusaram-se pura e simplesmente a subscrever esse documento - v. aqui.
Também me parece estranho que o Procurador Geral e a Procuradora Dra. Cândida Almeida apareçam constantemente nas mais diversas sedes jurando a pés juntos que não há pressões, pois parece uma evidência que não podem conhecer tudo o que se passa com os Procuradores investigadores do caso; seria mais curial esclarecer que “tanto quando saibamos, não há pressões”.
A gestão mediática do assunto pela Procuradoria tem sido desastrosa.
O Dr. Pinto Monteiro presta declarações e envia comunicados sobre o caso Freeport 24 horas depois de ter declarado que não diria mais nada sobre o assunto...
Ele e a Dra. Cândida desdobram-se em aparições mediáticas, banalizando a sua presença nas notícias com declarações repetitivas, arriscando-se a que o tele-espectador se habitue a mudar de canal quando eles aparecem.
E por mais voltas que dêem, não estão a conseguir convencer os cidadãos de que o caso Freeport está a ser tratado com tanta objectividade como os outros.

quinta-feira, abril 02, 2009

Feijão e tacho

O candidato socialista às europeias rejeitou hoje que as eleições para o Parlamento Europeu sejam "a feijões" ou apenas uma “sondagem” para as legislativas, defendendo que se trata do acto eleitoral mais importante de sempre para a Europa.(...)

Comentário: este sujeito está a tresler, já começou a confundir feijões com... tachos.

quarta-feira, abril 01, 2009

Sistema doente

Sistema democrático português «está doente», diz Cravinho.
Para João Cravinho, o facto de apenas o Bloco de Esquerda (BE) se ter manifestado contra a nomeação de Domingos Névoa para presidente da Braval, uma empresa intermunicipal de tratamento de resíduos, é «uma péssima indicação sobre a saúde» do sistema democrático português. (...)

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